Domingo, 19 Nov 2017
   
Intimismo e Desabafo PDF Imprimir E-mail

 

Ao criar solto palavras que correm pelas lembranças e imagens do meu passado. É um vai e vem constante entre bons e maus momentos que vivi. Elas percorrem vários caminhos, matam sua sede no rio de lágrimas de alegrias e tristezas que vem seguindo seu curso natural em minha vida até desembocar no agora. Um rio de águas caudalosas, traiçoeiras desde sua nascente: o meu ego. Muitas vezes não agüento a força da corrente e sofro com inundações inesperadas de saudade. Calamidade total. Tudo pára.

As palavras alimentam-se de sentimentos e emoções; trazem antigas esperanças e reanimam sonhos adormecidos. Situação delicada, pois muita coisa continua difícil de ser digerida. Elas seguem seu rumo pelos sinuosos e obscuros caminhos das minhas angustias e frustrações. Reencontram os que ficaram pelo caminho; contemplam antigas paisagens esquecidas à força nas vezes que fui obrigado a continuar minha trajetória sem poder olhar para trás. São pistas escorregadias por causa das lagrimas, frias devido às vezes que fui indiferente por orgulho e medo de voltar. Elas me surpreendem, permitindo-me ver paisagens que passaram despercebidas, pois, quando deveria ser sensato, corri demais. Elas seguem, nunca param. Cortam caminho. Descobrem atalhos. Sempre voltam carregadas, realizadas.

As palavras também correm para o futuro: fonte de incertezas, esperanças e preocupações. Brincam com meus fantasmas, não temem nada. Querem vida, querem percorrer caminhos inéditos, estradas desconhecidas, para se alimentar de novas aventuras e emoções. Elas não podem parar, nem querem voltar. Vão sempre à frente, correndo com o tempo, enquanto passo pela vida. Estão sempre atrás do novo, surpreendendo e sendo surpreendidas a todos os instantes. Apesar da ansiedade e apreensão, quando se movem para o futuro elas são mais sensatas, menos inconseqüentes, pois sempre voltam sensibilizadas do passado.

E continuam ousadas. Cumprimentam o desconhecido, convidando-o para brindar a vida. Elas seguem famintas, consumistas compulsivas, querem mais prazer, alegria, contratempos e paradoxos. A tudo abraçam, e se comprazem fazendo combinações, quebrando regras, mostrando novas formas de ver o mundo e as pessoas. Elas alternam momentos de equilíbrio e caos. São destemidas e, por tanto se movimentarem, estão sempre com sede de viver. E querem sempre mais do bom e do melhor. Não se contentam com qualquer coisa, vão atrás do belo e do nobre, vão beber na essência do viver. Elas sabem que se pararem serão atropeladas pelas banalidades e engolidas pela mediocridade.

11/05/1996

-----//--- marco bauhaus ---//-----

A falta que ele me faz

Estou de relações cortadas com meus cabelos. Eles são muito egoístas, indiferentes e mal agradecidos. Imaginem vocês que, em função da calvície, eles partirão da minha vida para não mais voltar. Mesmo nos momentos finais se rebelam contra mim, não aceitando qualquer penteado. Estou quase maluco, neurótico, mas não cedem ou demonstram qualquer apreço pela amizade que tivemos.

Tentei, em todo este tempo de convívio, cultivar uma grande amizade, dando o que de melhor podia fornecer. Bem, sei que muitas vezes fui desleixado, mas não foi por mal, eu diria por puro esquecimento. Talvez eles estejam revoltados por causa das minhas atitudes de infância, quando, dizem os outros, eu odiava tomar banho. Não me lembro disso, nem chamarei ninguém de mentiroso. Poxa, eu era apenas uma criança! Não tinha a mínima idéia do que poderia acontecer. Agora, sinto na cabeça como são insuportáveis os atos de radicalismo.

Ninguém é perfeito. As pessoas possuem virtudes e pontos fracos e, ainda assim, existem aquelas que se esforçam para serem os melhores possíveis. Eu sou assim também, não sou perfeito, mas me esforcei em ser um grande amigo: parava para dialogar, não incomodava e até deixava de pentear para não machucá-los com os insólitos pentes.

Agora, neste momento em que a dissolução é certa, fico pensando como a vida é. Mas ficarão as saudades e as grandes lembranças.

18/08/94 (20:35 hs), Seropédica, Casa 494.

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Nas vezes em que fui prisioneiro de minhas aflições, diante da possibilidade de não alcançar meus objetivos, eu buscava coisas que me aliviassem, sem distanciar-me dos problemas. Algo que fosse bom, mas não omisso. Nessas vezes, que foram muitas, eu estava irremediavelmente sozinho. Estava só e preso àquela realidade limitada de Seropédica. Além de solitário e preso, eu estava pensando e agindo como um tradicional funcionário público.

Como sempre as respostas não vieram, nem pistas ou evidências. Para acabar as aflições eu esperava o tempo passar, atropelando meus ideais, sonhos e auto-estima. Vítima do tempo, da imaturidade, da grandeza espiritual; vítima perfeita de imperfeições só possíveis aos mais humanos; fragelado pela vontade de ser diferente, original e de realizar algo importante para o mundo.

Vítima, mas não tão vítima assim, já que não foi me concedido, ainda, a oportunidade do derradeiro suspiro, da última visão, do calar dos sentidos. Enquanto houver tempo, haverá oportunidade para sonhar, buscar, ganhar, perder e começar de novo.

A solução não veio, como não podia deixar de ser. Para tanta grandeza não seria pouco digno, receber algo pronto ou acabado. Mas para confirmar a essência da ideal, era preciso buscar respostas e soluções. Como não pode deixar de ser.

31/10/94, São Lucas/BH

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Continuando

Mais um dia que passa. A vida continua no ritmo que as dúvidas e as descobertas permitem. Em mais um dia que acaba, começa mais um dia de esperança. A esperança é o combustível que me permite não acabar.

Estou longe de casa, perto dos dias, envolto no tempo e no espaço. O homem prega para a estátua de Arariboia, na praça, a necessidade e a obrigação do mundo acabar. Ele não tem dúvidas: o mundo vai acabar. Eu preciso continuar. E o dia já vai acabar. A barca que me trouxe à Niterói vai voltar e eu já vou estudar, inclusive no dia que ainda vai começar. Estou cansado, não sei onde vou parar. Na volta eu pego a Vital Brazil para lá.

O cansaço não me permite esquecer que devo continuar. As palavras do homem de fé no calor da tarde de Niterói não conseguem me parar. A população volta ávida para casa na esperança de se encontrar na frieza de uma vida que a impede de sonhar. Eu sou da população, mas eu vou sonhar. Estou aqui para me encontrar, mesmo sabendo que a qualquer momento vou parar. A aula vai começar.

A aula começa, mas não posso parar. Preciso escrever, preciso sonhar. É uma vida que me chama e não vai acabar. Eu vou passar junto com as horas do tempo que não vai parar nem acabar. Eu sou a própria esperança que me faz continuar. O sonho ameniza o cansaço, enquanto luto para não parar. Não vou entregar-me, vou integrar-me à vida que o mundo me permite passar. Enquanto viver, vou amar. A luta continua. As dúvidas também.

Com dúvidas, longe de casa, cansado, sonhando, amando, continuando e os dias passando. A fé do Índio da estátua me faz pensar, sem parar, até quando isso vai continuar? As aulas, eu sei, daqui a pouco vão acabar. Certamente estarei mais devagar, um pouco mais velho, menos arrogante, mais pensante, sonhador e, espero, mais amado.

O dia está acabando. Eu consegui continuar a continuar, pelo menos, até agora. Ainda estou longe de casa, do que procuro e sonho. Outro dia vai começar. Esse que vai acabar não se cansou. Meu amor cristalizou. A aula acabou.

(UFF- Valonguinho/Niterói), Jan/1995

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Sempre surpreendi. Procurei ao máximo criar condições para surpreender e ser surpreendido. Nunca evitei as surpresas. Fiz dessa idéia um grande paradigma, nele me escorei e alicercei minha vida.

Agora fui surpreendido de forma super negativa. Estou fraco, caindo aos poucos, mas não morto. Uma coisa não mudou: minha admiração pelo viver, apesar de, às vezes, achá-lo sem sentido.

Estou no poço, com a auto-estima abalada, decepcionado, magoado e frustrado, mas não acabado. Estou vivo. Mesmo surpreendido, ainda quero surpreender e ser surpreendido, pois, quando não mais puder surpreender e ser surpreendido, deixarei o mundo.

Para quem vou surpreender, digo que faço com amor, na expectativa de poder criar novas realidades positivas, de forma que possamos perceber e viver juntos as coisas boas da vida. Para quem me surpreendeu, agradeço muito, serei sempre grato, por não me deixar acomodar e alienar-me da vida. Serei grato aos que me provocaram surpresas agradáveis, e aos que me surpreenderam negativamente, provocando estragos em meu ego. Nunca vou esquecê-los, pois a grandeza de minha vida, também resulta de seus esforços, erros, desencontros e indiferenças.

05/04/95, ESPM-RJ, rua Teófilo Otono, 44.

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Digressão

Acho que vou sair desse lugar, dessa realidade, desse ambiente. Estou cansado de não ter problemas, de ter uma vida certinha, previsível e sistêmica. Deve haver algo melhor do que essa vida que levo. Estou na fronteira das minhas resistências à normalidade, preciso conhecer melhor o caos. Preciso saber que o caos não é somente aquilo que meus filhos fazem quando tomam café.

Ainda sinto saudades de quando bebia na faculdade, boa fase de minha vida. Lá não havia obrigações de palavras e pensamentos possuírem afinidades com a concisão. Por que não pensei em casar quando estava bebendo? Talvez minha vida fosse mais concisa e o casamento algo mais suportável.

Ficarei muito feliz quando meu filho for meu amigo, quando ele deixar de ser um ser passivo e passar a agente das mudanças em nosso lar. Certamente viverei melhor quando ele for meu herói. Começarei hoje, quando for pegá-lo na escola. Aproveitarei o engarrafamento para expor minhas idéias.

Bem, quando sair do serviço não vou diretamente à escola do meu filho, vou a uma aula de filosofia em alguma faculdade, vou bater um papo com algum pensador internado em hospital psiquiátrico, vou a um bar de nostalgia ouvir as idéias do mundo que passou e frustrou alguém.

06/01/1995

Digressão

Hoje a noite matarei meu primeiro e único impulso sexual mecânico diário . Com muita alegria, o sufocarei com risos e gargalhadas bem sonoras para tirar meu casamento da insônia profunda que o abateu. Vou acordar minha relação matrimonial e colocá-la na parede, despi-la e tocá-la com delicadeza, sentir seus estímulos; penetrar nela sem medo, consciente, para encontrar algum sentido para continuar sendo matrimônio. Não me frustrarei se chegar a conclusão de que não mais poderá ser matrimônio, de que devemos descontinuá-lo.

Ainda hoje, antes de esquecer propositalmente que não podemos mais ficar esquecendo que ainda somos humanos, vou tocar o corpo de minha esposa com os olhos do alheio. Vou ver naquela mulher que fomentou minhas melhores ereções, algo mais que noções de obrigações legais. Verei nela a vida que aprendi a não praticar e ignorar. Vou despir-me pela primeira vez depois que nos casamos, para, enfim, nos conhecermos realmente. De hoje em diante aprenderei a ver minha companheira como meu vizinho poeta: a metáfora do prazer.

11/01/95, UFF. Valonguinho

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Da janela da Barca

Por alguns instantes as coisas parecem ser mais fáceis e tranqüilas. Bombardeado pela gostosa e refrescante brisa do mar, fortifico-me para continuar na luta. A brisa me reinventa. Ela só não faz diminuir a saudade. Por melhor que seja a saudade, preciso de muito mais coisas: preciso das pessoas, de tempo, do destino; preciso, preciso.

Preciso mesmo ser a mesma pessoa a cada dia, porém, renovada; preciso acreditar que acreditar é a melhor solução; preciso impedir que o cansaço, rotina, banalidades, ansiedade e limitações me destruam; preciso de você, do nosso amor, dos nossos sonhos.

Preciso ultrapassar a consciência de que se é humano para não desistir; preciso acreditar ser uma máquina, onipotente, intransponível e imbatível, para não parar. Sinto-me uma maquina que ama, pois levo uma vida rotineira e pesada, tendo o amor e os sonhos como combustíveis e lubrificantes. Preciso chegar lá.

Preciso chegar a algum lugar, onde me sinta bem, realizado, mais satisfeito, mais vivido; preciso convencer-me de que estou fazendo a coisa certa pela vida que me foi concedida; preciso crescer junto com as pessoas, com o mundo, fazer e ser feliz, superar as barreiras que ofuscam os sonhos e que nos impedem de sorrir; preciso esquecer que tenho medo, que várias vezes hesitei na vida, que tenho duvidas e que sou humano; preciso vencer, alcançar tudo o que anseio e imagino.

Tenho medo, quero chorar, quero sorrir, quero estar em equilíbrio, mas também quero transcender as limitações do meu mundo. Estou espremido entre sonhos e frustrações e com uma ansiedade corrosiva que me deixa cada vez mais insatisfeito.

Estou perdendo energia no ato de esperar. Tenho que vencer para mostrar a algumas pessoas que é possível chegar a algum lugar escolhido, imaginado, sonhado. Preciso deixar claro para essas pessoas que não fazem nada pelas suas vidas que é possível sonhar.

O que eu preciso mesmo é estar ao seu lado, viver junto e contigo experimentar a vida.

06/01/95 Baia da Guanabara, Barca Urca

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Lágrimas, naufrágios e amores

Quero chorar lágrimas que ajudem a transbordar o rio de emoções que é a minha vida. Minha vida precisa mudar. A enchente, quem sabe, transformará minha vida?

Mas não posso ser náufrago de meus sonhos e ideais, nem desabrigado de minhas paixões. Mas a calamidade, quem sabe, pode dar novos rumos e expectativas para minha vida?

Eu posso chorar, eu devo chorar para tirar-me da pressão, para lavar minha alma e limpar minhas faces sujas de insatisfação.

Eu vou chorar porque sou humano e o ser humano nunca será prescindível, nem se tornará inoperante ou emperrado quando exposto à umidade da sua própria dor.

Quem vai chorar minhas lágrimas sou eu e minha boa vontade para lutar pelo melhor e indignar-me com as ignomias sofridas pelos humanos e também pelos não humanos.

Eu vou chorar para sorrir, sem qualquer interferência, da loucura que tenho direito; vou chorar para não deixar dormir a normalidade que me obrigam e cobram.

Eu choro para não perder a capacidade de impressionar-me com as coisas e para não perder a capacidade de impressionar essas mesmas coisas; choro para poder estar com a alma livre dos rancores e sentimentos baixos, para poder viver intensamente o momento de calamidade e a nova vida que virá.

24/01/95, UFF, Valonguinho.

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Acontecendo

Viajo para poder estar lá quando o mundo acabar.

Amo para poder estar bem, lá, quando a hora chegar.

Duvido para poder entender bem quando tudo começar, sem precisar estar lá.

Mas vou para lá; quando, não sei precisar.

Sonho para poder transformar o que entender de lá, e para poder continuar a viver antes de ir para lá.

Crio para poder melhorar, ainda cá, o que entender de lá, e para quando estiver lá ser melhoro meu estar.

Escrevo para poder dissecar o que entender de lá, e para, quando tudo acabar, começar algo novo, lá ou em qualquer lugar.

Faço para poder dinamizar a vida que tenho cá, de forma que a vida que eu tenha lá seja melhor que a de cá.

Faço, pois o mundo não vai acabar.

31/01/95, UFF, Valonguinho

-----//--- marco bauhaus ---//-----


A emoção do raciocínio

Tem horas que paro para pensar sobre a vida. Imediatamente uma ansiedade fulminante me assola, então, busco forças para enfrentar esse problema. Penso mais e mais sobre ele, tento analisá-lo profundamente, de forma sistêmica. A racionalidade parece ser a melhor forma de ação sobre a ansiedade que viver nos suscita. A sensação que tenho é a de que o viver está encurralado, está em minhas mãos: eu posso compreender e apreender a vida. Fico feliz. Parece um sonho, estou apoderando-me do viver. Nada de mistérios, nada de complexidade, tudo claro, previsível e manipulável.

O pensamento me permite manipular as variáveis independentes do viver, consigo transcender a impotência sem cura do homem e levanto a cabeça. Eu grito e me emociono. A emoção toma conta de mim, sou pura adrenalina, sorrio e choro ao mesmo tempo. Viver não é mais nada. Eu posso jogar dados com meu destino, jogo xadrês com o mundo e dou um xeque mate em meus fantasmas! Minha voz vai acabando, estou sem controle, mas tudo é festa. Se faltar a voz, demonstro meu orgulho com as palavras, de qualquer forma. Não importa. Estou emocionalmente multimidia. Não posso parar. O pensamento venceu. Não posso me conter, é muita emoção, nem consigo parar para pensar sobre a vida.

29/03/95

-----//--- marco bauhaus ---//-----

A moca dá as cartas

A moça jogou as cartas e leu meu destino.

No jogo da vida, o destino dá as cartas e eu observo.

Cartas na mesa, palavras na boca e o coração na mão.

A moça falou coisas que eu queria ouvir, que eu queria falar e que não entendi.

Falou o que estava guardado, o que foi sufocado.

Falou, falou, falou...

As cartas da moça me deram um empurrarão, me espremeram nas paredes da minha existência. Fizeram calar, chorar, rir e sonhar.

As cartas da moça trouxeram lembranças, sentimentos esquecidos a força, pensamentos esquecidos em alguma dimensão da minha vida.

A moça das cartas mexeu comigo, me abalou, tocou fundo em minhas inseguranças e incertezas. A moça jogou luz sobre a escuridão afetiva que me acomodava.

As cartas da moça não deixaram dormir um passado presente forçado ao silêncio, despertaram meus gritos de amor sufocados, libertaram lágrimas retidas a pancadas de indiferença.

A vida é um jogo, é destino. Não sei falar se sou jogador. O jogo da moça eu não considerava. O jogo das cartas me fez calar. As cartas do jogo de viver me fazem entender que nada sei e que nada sou.

A moça, as cartas, o destino, o jogo, tudo isso me faz calar, tudo tem sentido. Coisas que não entendo me fazem calar, chorar, rir e sonhar.

22/11/95 ESPM – RJ, rua Teófilo Otoni

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Não sei o que me aborrece mais: a dúvida sobre o que criar ou desespero de como criar. Quando paro para criar uma grande dúvida me abate. É tão forte que me acho a própria duvida e não duvido que a seja. Ao criar, um forte sentimento de insignificância toma conta da minha pessoa, fazendo-me sentir um nada, agindo como um grande coisa alguma. A criação me faz desaparecer, sentindo apenas que existo, porém, sem saber se sou. Mas a certeza da criação é o saber do não ser, do existir cheio de duvidas. A dúvida é o certificado da minha existência e a possibilidade virtual de ser a qualquer hora ou lugar se for criar.

A dúvida sobre o que fazer nunca acaba, por isso existo e, às vezes, sou. Depois da dúvida, o desespero, que mais parece a obrigação de ser. Sem criação, sem ser, existindo, apenas. Ser de qualquer forma, em qualquer hora e lugar para ser feliz. Como? É o desespero. Como ser e fazer as coisas acontecerem, criando, se ao criar desapareço?

O momento da criação‚ o momento da desmaterialização. Quando acho que terminei de criar alguma coisa, já não me encontro, já fui, não sei mais nada, resta apenas a certeza de que a criação é um ato sem fim. A criação me consome, a dúvida me restitui. Percebo-me, apenas vagamente, quando volto a duvidar. E, a cada dúvida, uma vontade louca de criar para ser e, então, desaparecer. Aparecendo depois para duvidar, o que certifica apenas o existir, possibilitando virtualmente ser. Não sei o que me aborrece mais.

07/12/95, UFRRJ-CPD, SALA 21

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Ano Novo. Vida nova. É o que se fala sempre, mostrando que tudo é velho, o mesmo discurso politicamente correto, que na verdade só deixa claro a dificuldade das pessoas para criar novas realidades. Nada caracteriza mais a vida medíocre que levamos do que as palavras proferidas nessa época de virada do ano.

Ano após ano estamos discursando sobre estes sentimentos de esperança e expectativas, do que no decorrer do ano esquecemos, pois não praticamos efetivamente nada que possa tornar isso realidade. Esquecer é a regra, pois muito custa deparar-se com as palavras outrora proferidas. Desta forma, institucionaliza-se a hipocrisia geral, o vazio que ameniza temporariamente a consciência ferida. Enquanto houver tempo e recurso suficientes, adia-se o momento da prestação de conta, enchendo o dia a dia de engodos, sustentando a existência em falácias e estacionando o viver no lugar comum. Há muito a coerência foi abandonada, lembrada somente quando somos lesados materialmente por outros. Apenas ao nível material, pois o universo espiritual está relegado a segundo plano, existindo apenas por aparência.

É muito triste pegarmos palavras de semântica tão forte e importante e proferi-las sem qualquer cuidado, sem que seja baseado em ideais de aspirações nobres. Falamos de esperança, futuro, felicidade, amizade e liberdade, sem qualquer coerência, sem o mínimo de comprometimento com a nossa ou a vida do próximo. Esgotamos as possibilidades de realizarmos significativas transformações em nossas vidas de forma infantil e inconseqüente. Infelizmente, nossas atitudes estão sempre em desacordo com o que foi falado.

Assim levamos nossas vidas. Este é o nosso posicionamento ao nível afetivo, profissional, familiar e social. O imediatismo toma conta de nossa vida, não nos propomos a nenhuma realização de longo prazo. Tudo é superficial e volátil. Infelizmente, não existe nada que possa servir de esteio nesta baderna. O vale tudo é institucionalizado e quem tiver chances sai na frente, em detrimento ao bem estar da maioria.

Dia após dia oficializamos o automatismo das relações, o vazio lúdico e a banalização do viver. O agora é a tônica reinante, o daqui a pouco criado pelas atitudes impensadas é o futuro possível, é a realidade que se tem para viver. Ao contrário do que se diz quando algo ruim acontece (sinto muito), não se sente nada , nada nos sensibiliza. Passamos todo o tempo voltados para nós e esquecemos o resto, até que chegamos ao fim de mais um ano e repetimos o de sempre: Ano Novo, vida nova!.

02/01/96

-----//--- marco bauhaus ---//-----

 

Ser simples é tudo o que preciso na vida. É o que acredito neste momento. E como está difícil ser simples! Sinto-me tão distante de coisas, pessoas, atitudes e pensamentos que me fazem bem, que aquilo que um dia eu chamei de solidão está virando uma crise crônica de estranhamento.

 

A falta de simplicidade é um dos sintomas dessa crise. Falta simplicidade para pensar, falar, agir e, principalmente, escrever. Estou há tempo sem escrever e mesmo assim as palavras quase não saem: falta simplicidade. Parece tão simples pegar uma caneta e um papel e começar a agir, mas não estou conseguindo. Pior ainda em relação ao computador: paralisia total, nem nos conhecemos mais.

Venho perdendo, sucessivamente, batalha para a mediocridade, submetendo-me às banalidades do dia-a-dia. São numerosos os finais de semana que passo imerso em banalidades, sem criar qualquer coisa, bebendo da sua essência sem esboçar qualquer reação e provando, sem apelações, minha fragorosa derrota para a mediocridade.

Falta-me simplicidade para sentar, silenciar e deixar a mente viajar, registrando no papel tudo o que estou vivendo nesse momento tão importante da minha vida. Até agora faltou simplicidade para assumir que está faltando simplicidade em minha vida. E a solução do problema parece tão simples.


-----//--- marco bauhaus ---//-----

 

Vamos fazer acontecer? Vamos sim, não vale à pena ficar esperando as coisas prontas.

Que tal fazer uma vida digna? Vamos sim, é algo desafiador. Vamos fazer!

Fazer é ter coragem de arriscar, de se preocupar com algo ou alguém, de se envolver e se entregar ao ato de se doar. Só faz quem é capaz de sentir, imaginar, sonhar, buscar e de permitir. Fazer é criar. Quem cria dá vida, forma, identidade e personalidade. Quem faz apresenta, tira de dentro de si, divide, compartilha.

Quem faz lembra. Fazer é dar-se a oportunidade de sentir saudade. Quem faz vai mais longe, vai ao fundo, às ultimas conseqüências, quer ver pronto, vivo, livre.

Fazer é definitivo, absoluto. Fazer, verbo completo. Fazer toma tempo. Quem faz gosta, se importa, ama, vive, liberta. Fazer é tudo, mas não dispensa explicações.

Depois de realmente feito não tem volta, já está feito. Mas só se faz aprendendo, começando, tentando. Faz-se pintando, escrevendo, esculpindo, modelando, apertando, montando, cozinhando, costurando, amassando, retorcendo, misturando, cortando, arranhando, colando, plantando, economizando, amando. Se ficar pela metade não acabou, ainda não foi feito, ainda não tem vida.

2002

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Esperança e precaução

Retratos do meu momento. Marcas de uma nova postura que não sei ainda se dura. Esperança nas mudanças: nas que faço e nas que acontecem sem que eu nada possa fazer, a não ser vivê-las. Sendo que as últimas acontecem em freqüência bem maior que as primeiras, porém, sempre sem acompanhá-las em qualidade.

O que faço mudar ainda repercute mais significativamente em minha vida, pois reflete a liberdade que tenho para escolhas e a experiência que ganho ao passar do tempo. As mudanças que não peço para acontecer sinalizam os efeitos da passagem do tempo sobre meu corpo, sinalizam a dependência que tenho para com os outros, principalmente com aqueles tem mais autoridade e poder.

Precaução em tudo o que faço. Do menor passo a ser dado à decisão mais crítica: a que envolve mais pessoas e afeto. Precaução, inevitável opção quando se envelhece e não sem tem poder suficiente; quando se sabe fraco e vulnerável; quando se tem mais temor que fervor para querer e decidir.

19/07/2004

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Filhos da Pátria

No futuro ninguém será mais filho de bóias-frias. As máquinas farão tudo nos canaviais e os bóias-frias irão para as cidades lutar como podem para garantir o açúcar deles de cada dia. A cachaça já está garantida, pois sempre haverá alguém recorrendo a ela ou compartilhando-a para poder esquecer que a vida não é sempre doce. Expulsos do campo irão todos os bóias-frias para o latifúndio urbano plantar sonhos de uma vida melhor. Com sorte, um dia seremos todos filhos de garçons, pedreiros, pasteleiros e faxineiros, mas nunca mais filhos de bóias-frias.

Mas se a má sorte continuar a acompanhar os bóias-frias e se esse mesmo jeito de governar o Brasil continuar, no futuro seremos todos favelados, tratados como filhos-da-puta, colhendo os frutos tortos de quem não aprendeu o que plantar nesse latifúndio de concreto.

Como no passado, uma coisa já está garantida: só nos cartórios é que se tem como registrar e legitimar um nome, mesmo assim, depois de pagar. Ali, pelo menos ali, nada se planta, nada se colhe. Ali, a tudo se carimba. Pelo menos ali, ninguém é bóia-fria, faxineiro, pedreiro, garçom, um filho-da-puta, ainda que de alguns as mães não sabem dizer quem são os pais. Ali, pagando, são todos filhos da pátria.

2005

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Não quero parecer mais nada

Não quero mais parecer nada. E nada do que eu pareça me interessa mais. Pelo menos agora. Já me preocupei demais em parecer, aparecer, se ia perecer ou mesmo desaparecer. Agora não quero parecer nada, tampouco aparecer, perecer ou desaparecer.

Tampouco me preocupa o que as pessoas pensam do que eu pareço para elas. Agora eu quero apenas ser o que realmente sou: aquilo que me apresenta ao mundo e não o que usei apresentar ao mundo.

Não quero parecer inteligente. Tenho medo da inteligência. Nem sei se um dia fui inteligente. Apenas me senti e ainda me sinto atraído pela beleza e complexidade do pensamento que não tem compromisso com o usual, o lugar comum, a coisa dada de todo dia que não carece de questionamento. Apenas ousei fazer o mesmo: apresentar outras leituras da realidade. Mas sempre tive medo da inteligência.

Não quero parecer moderno. Tenho medo do que está para além do agora. Nem sei se eu sou ou fui moderno algum dia. Apenas não suportava o que eu tinha por perto, o que definia o meu mundo. Não suportava algumas coisas, pensamentos e atitudes como elas eram. Algumas pessoas me eram mesmo intragáveis.

Eu quis as coisas conforme elas eram nas leituras que ousei fazer do que foi, naquele momento, o agora. Passou. E fui atrás dessas coisas, agi conforme a leitura indicava para legitimar aquilo que ainda não estava perto, que estava para ser construído, conquistado. Alguns chamavam aquilo de modernidade. Eu só queria o novo, o único alimento que saciava minha irrequieta alma.

Eu tentei me aproximar das pessoas que me faziam bem, sem mesmo elas próprias fazerem sempre bem outras leituras da realidade. Mas elas me atraiam e muitas ainda me atraem. Às vezes ainda sinto vontade de me aproximar, mas agora não quero não. Pelo menos agora, quero distância.

Não quero parecer sensível. Tenho medo de onde vou parar com tanta abertura para o que eu e os outros sentem ou possam vir a sentir. Tenho medo, mas quero agora, pelo menos agora, olhar mais para mim. O suficiente para não perecer sem que eu me perceba. E para que eu perceba o que está me acontecendo sem me desesperar.

Eu tenho medo mesmo é de cair em desespero. E isso me assusta e me faz parecer mais humano, escondendo o quanto sou egoísta. Parece até que eu me abro para os outros apenas para saber o que pode me acontecer.

Não quero parecer durão. Apenas aprendi a enfrentar com certa dignidade e resignação algumas adversidades. Tenho medo de quedas. Mas nunca tive medo o suficiente para não ter tentado o que já me propus um dia. Agora eu quero muito é passar com dignidade por tudo aquilo que me está por vir. E ainda quero muito continuar sentindo aquela gostosa vontade de querer fazer coisas que me fazem bem.

Não quero parecer corajoso. Temo as quedas. Mas agora eu quero muito é tentar viver o que minha intuição me diz que irá me fazer bem. Não quero mais recuar diante aos medos nem mais achar que eu tenho é que dar certo. Isso só me levou ao caminho do parecer e me afastou e ainda afasta do que eu no fundo ainda sou e de tudo o que eu ainda posso viver, sendo o que realmente sou.

30/04/06 Casa da Rua Monte Alegre, 18, Ecologia. 06/10/2006, Rocha, General Rodrigues 32/apto104.

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Reeditando José

E agora José? A corrupção aumentou, a educação piorou, a violência se institucionalizou e a saúde não melhorou.

Os juros não baixam, a moeda não tem lastro, a soja sustenta o país e os deputados roubam até ambulância.

A água está encarecendo, os bichos sumindo, o vento esquentando, o concreto crescendo, a sombra se artificializando e as arvores acabando.

O salário continua uma vergonha, as universidades públicas vivem em greve, o esgoto vai para lagos e praias, juízes e desembargadores só querem lutar pelos empregos dos seus parentes e pelas causas dos seus amigos.

O trânsito vive engarrafado, a luz e o telefone só encarecem, os remédios não funcionam e seus vizinhos não param de fazer barulho.

E agora, José? Vai ficar esperando o hexa-campeonato mundial para esquecer tudo isso?

E agora José, Maria, João, Pedro, Paulo, Ricardo, Edson, Ronaldo, Marco, Luiz, Antonio, Sabrina, Heloisa, Lucia, Simone?

E agora, pessoal, o que vamos fazer?

09/06/2006, 12/12/08

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Portas abertas

Gostaria de informar a vocês com quem tive o maior grau de proximidade em toda a minha vida que as portas sempre estarão abertas, que vocês sempre serão acolhidos por mim. Quero dizer que me manterei fiel ao chamado, desígnio, carma etc., qualquer que seja o fator que explique o encontro das nossas trajetórias nesta vida. Serei fiel à nossa condição de cúmplices de uma vida vivida como se pôde em um determinado período das nossas histórias individuais.

Essa condição, que assumo sem medo e sem ressalvas, jamais me deixará indiferente às demandas que vocês tenham pela vida, a ponto de fazer com que eu me esqueça que aquilo que nos iguala é mais importante do que aquilo que nos diferencia. E o que nos iguala, entendo, é a condição de sermos projetos finitos e incompletos que encerram qualidades e defeitos, vontades e receios, forças e fraquezas, mas, principalmente, a necessidade de ser acolhido e reconhecido pelo seu pertencimento a um determinado contexto histórico. Tenho certeza que pautar nossas vidas em função do que nos diferencia não nos levará muito longe nessa caminhada que segue.

Enquanto for possível apenas pela minha vontade, as portas estarão sempre abertas para dar pouso e suporte no percurso que nos resta, se vocês entenderem que há algum valor nesta cumplicidade. Estejam sempre à vontade para falar dos seus sonhos, projetos, receios, desventuras e frustrações, principalmente se quiserem a minha participação em novos projetos, coisa que adoro fazer e que me gera uma proveitosa consciência de qual seja minha missão nesta vida. Procurem-me, tragam seus contos e causos, planos e percepções, qualquer que seja o produto oriundo das suas atividades criadoras! Adoro ver a vida sendo transformada a partir da aplicação das nossas capacidades ou daquelas adquiridas sobre a matéria-prima dos nossos sonhos e idéias. Adoro pensar a vida, o amanhã, como uma possibilidade, algo a ser construído por nós, ao invés de um fato inexorável, previamente determinado, e sobre o qual não podemos fazer nada.

Falem-me dos seus medos e receios, pois tenho experiência nisso, sei bem o que é ser uma pessoa que se apavora e que por alguns instantes optaria por não fazer nada por temer o que pode acontecer. Eu já hesitei bastante em minha vida, mas também sei o que é tentar fazer coisas acontecerem. Sim, sei um pouco das dores e delicias de sonhar algo e tentar realizá-lo. Também sei algo sobre o que significa saber-se em um momento em que a liderança cabe a você, que é você quem está encarregado de promover mudanças na realidade. Por exemplo, quando tiverem alguma idéia para uso de um pedaço de terra vazio, podem me procurar porque eu sei o que significa e quanto custa criar uma nova realidade, enfim, quanto custa investir num sonho. Eu sei das dores e delícias de fazer um empreendimento e um lar a partir de um lote vazio. Sabe, falo dessa coisa de pegar um vazio e enchê-lo de elementos com fortes e nobres significados?

Quando o assunto for uma inquietude com alguma instância da vida de vocês (familiar, afetiva, profissional etc.), uma insatisfação solicitando mudanças — as chamadas vozes sorrateiras de uma intuição — venham falar comigo, pois poderemos compartilhar as informações que temos e chegar a algumas constatações proveitosas. A vida que levei e a que hoje levo são explicadas em grande parte pela maneira como reagi a esta inquietude que sempre me acompanhou e me fez tomar as decisões, seguir os rumos que segui. Eu sei o que é ser assediado por essas vozes da intuição e que por vezes assumem a forma de imagens da vida que achamos que devemos levar e que contrastam bastante com a vida que levamos. Eu sei bem o que significa não se resignar diante disso, de não alcançar uma serenidade que explicasse o não fazer nada. Tenho uma coleção de erros e acertos para compartilhar, um pouco de experiência sobre o que significa por em prática um sonho que te incomoda.

Quando o assunto for afeto, indefinição quanto a natureza e intensidade dele, não deixem de falar, pois sei bem o que isso significa. Posso lhes relatar os detalhes da minha trajetória de passageiro da agonia atrás do que realmente significa amar. Posso lhes falar sobre o entendimento (e implicação) do amor como aprendizado e não como produto acabado, aquele algo que dizem nascer intacto dentro de nós e que funciona perfeitamente quando solicitado. Nossa, tenho muitos relatos sobre a busca desesperada por aquele sopro de vida que nos faz desejar imensamente estar com alguém, compartilhar com ele os sabores e dissabores dessa caminhada pela vida, de elegê-lo a pessoa com quem você ousaria dar luz a outra vida e repartir a responsabilidade por isto! Falo dessa vontade louca de chegar para o outro e falar: “vem, vamos seguir! Vem, cuida de mim que eu cuido de você! Vamos, temos algo a fazer nesta vida etc!”. Falo de muitas coisas que acredito serem viáveis a partir da perspectiva do afeto e das quais me isolei bastante por achar que não sabia o que era amar. E tudo feito com o objetivo de fazer bem ao parceiro da caminhada, de querer aprender.

Eu sei o que é essa náusea, essa maquina de insatisfação que viramos para poder levar uma vida que entendemos ser mais proveitosa, criativa, enfim, desafiadora. Podem chegar, as portas estarão abertas, eu nunca deixarei de estar presente e nunca abandonarei os lares em que vivemos! Eu sei bem o que significa sentir-se pressionado a fazer algo sem ter uma noção clara sobre como e quando fazer. Venham quando estiver dispostos ou cansados, ávidos ou fartos, certos ou errados! Venham, é bom ver vocês e, afinal, a casa é nossa!

21/09/2008

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Sobre o tempo

O tempo? Não, não devemos pensar muito sobre ele. Se vai passar, como ele é ou está, o que e como ele foi, qual é o nosso tempo, etc. Nós temos é que fazer o tempo; temos que dar a ele a nossa cara, a feição dos nossos sonhos, ambições, competências e capacitações. Sim, nós envelhecemos, morremos, mas somos nós que criamos o nosso tempo, que nomeamos os nossos instantes, que damos a eles as cores, os tons e o ritmo das nossas vidas. O tempo sempre terá a nossa cara, alma e coração. Não importa se somos nós que passamos por ele ou se é ele que passa por nós. Nosso tempo vive ou morre conforme queremos. Façamos o tempo! Não é você que tem a cara do seu tempo. É o tempo que tem a sua cara.

20/05 e 12/12/2008, Casa 9, 668ª, Seropédica

-----//--- marco bauhaus ---//-----

A casa é um elemento central em nossas vidas. É lá que temos proteção, alimento, damos e recebemos prazer, fazemos nossos planos sobre como enfrentar a vida, onde cuidamos e somos cuidados, e onde também promovemos nossas pequenas revoluções. Uma coisa é fundamental: jamais vá para uma casa onde você não se sinta bem ou onde você é forçado a estar ou se sinta comprado para estar. Outra coisa: a nossa casa, a gente tem antes mesmo de fazê-la, pois têm lares que se sustentam forte, mas muito forte mesmo, quando a casa física desaba, quando um grande percalço acomete a pessoa ou família que ela ocupa.

Nós começamos a sair de casa ainda dentro dela, quando conseguimos verbalizar com clareza para as pessoas que nos rodeiam como nos sentimos diante a maneira como elas nos tratam, o mundo que nos cerca e os sonhos que temos sobre como queremos viver. É bom legitimar essa condição diariamente, apesar dos contratempos e conflitos, e dos medos e receios. É bom legitimar essa condição de individualidade, de pessoa disposta a viver os seus planos, de fazer a sua vida. Também é bom demais saber que há uma casa para voltar quando tudo parecer estar dando errado.

Faça da sua casa a sua casa de se preparar para sair para vida e para te receber quando dela precisar, não aceite ser posto numa casa que não seja a casa que você pôs para viver, nem ponha numa casa as pessoas que você não quer para fazer lar.

22/09/08

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Hora de crescer

Nós somos os senhores dos nossos passos e rumamos para onde quisermos, muito embora desempenhemos este papel de maneira coadjuvante na trama da vida. Ou seja, tirando aquilo que está previamente escrito para nós, e que nos confere a condição de coadjuvantes na trama, tudo o mais que vivenciaremos será escolha nossa e conseqüência desta.

Essa decisão é nossa e intransferível. Esta condição de liberdade nós conquistamos conforme deixamos para trás a impotência da infância. Enquanto não temos maiores complicações cognitivas e de mobilidade, podemos desfrutá-la, exercê-la dentro das condições mais inteligentes, éticas e humanas possíveis.

O que viveremos será conseqüência das nossas apostas e terá a feição que soma a qualidade do que temos para oferecer e o serviço das circunstâncias. Podemos até querer algo mais próximo das nossas ambições, sermos hábeis na imaginação, mas não poderemos fugir da liderança na tomada de decisão sobre o que viver na trama, nem negar o desconfortável desencontro marcado entre o que imaginamos e o que acontece. É da vida, faz parte dessa trama. Este desencontro está realmente marcado.

O que importa mesmo é que os encontros, tirando aqueles previamente marcados por Deus, têm sua marcação sob a nossa responsabilidade. É só escolher a hora para começar a promover nosso encontro com o tempo; dar seguida à nossa caminhada, enfim, produzir a nossa realidade, aquilo que terá que ser encarado, insosso ou saboroso.

Está dado: nós escolhemos o que vamos fazer na trama. Definimos se continuaremos a viver o que temos vivido, disponibilizando-nos para os compromissos agendados relativos às velhas escolhas, ou se nos disponibilizaremos para uma nova definição de agenda, apesar dos pré-agendamentos feitos por Deus. Nós escolhemos: seguir a agenda atual ou criar uma nova. Será sempre assim: escolheremos coisas que demoram pouco para acontecer ou aquelas que solicitam mais tempo para se materializarem.

Fundamentalmente, nós escolhemos como reagiremos às nossas escolhas: se nos assustaremos com elas ou se as enfrentaremos dignamente. Está escrito: ninguém pode escolher por nós. No desenrolar dessa trama, no que diz respeito às escolhas, somos os atores principais, embora sejamos, diante a vontade de Deus, os premiados coadjuvantes.

25/09/08 – UFF-VR, sala N5b e apartamento da Gustavo Lira.

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Desufocar

Não sou nenhum criminoso. Não mereço a condição de proscrito. Quero meu direito a história, de poder reescrevê-la a partir dos meus aprendizados e arrependimentos. Não quero ninguém a escrevendo para mim, ditando-a diariamente, antecipando os fatos e sinalizando o que eu inevitavelmente faria ou farei. Estou sufocado. Quero oxigênio, tempo, espaço e direito à expressão; quero liberdade ideológica e de movimentos.

Não sou uma escória, não sou um louco, alguém que mereça vigilância constante. Apenas me lancei ao polêmico caminho do aprendizado do amor, do trabalhar com mais proximidade e freqüência com os elementos do enigmático mundo dos afetos humanos. Não cometi crime algum. Eu quis me entender, me conhecer melhor para poder me transformar, para trazer ao meu dia-a-dia, e para os que convivem comigo, mais dessa força e beleza que o amar nos concede.

Se cometi algum crime foi o de querer viver de maneira mais verdadeira e original num tempo em que esta opção é mais desvio do que regra. É isso aí: eu fui saber do amor. Este substantivo imperioso do qual passei distante por minha vida e que pouco figurou nas orações e parágrafos que formam muitos dos períodos da minha vida. Eu quis aprender a amar, verbo que ainda não aprendi a conjugar direito; ação transformadora que, diante os percalços da minha vida, aprendi a temer.

15/11/2008

-----//--- marco bauhaus ---//-----

O remédio está no veneno

É irônico, mas não tem jeito: no amor, o remédio está no próprio veneno. Apenas ele provê bálsamo confiável à chaga do ego partido, à chaga da alma desejosa da continuidade do encontro que outrora a embalava.

Apenas na dor da desilusão com a opção de compartilhar intimidades com o outro aprende-se o real valor de fazer e honrar limites. É quando ganham evidência elementos como silenciar, recuar e se isolar, que são respostas naturais ao corte do prazeroso fluxo de toques, palavras e presentes que marcam a rotina boa dos romances.

O silencio não marca apenas a opção de ação daquele que não ama, ele também comunica um pouco da impotência de quem está amando. Mas ele devia comunicar também a sabedoria daquele que ama e precisa se preservar. Mas o afastamento, além de materializar a ausência alheia, sempre marcará aquela velha e cômica cena do juntar caquinhos: os do coração partido e os das imagens gostosas que os que amam advertidamente vivem e criam.

Em silêncio pode-se se auto-acariciar, se aceitar, e, principalmente, aprender a dar ao ego as oportunidades e dimensão que ele realmente precisa. Afastando-se, protege-se o corpo da sanha do oportunismo sem compromisso, do estranho exercício de transformá-lo numa ponte para os desejos imediatos de quem não ama. Afastado, calado e isolado tem-se oportunidade única para conhecer a correta dimensão de quem se é, como se está e o que fazer para se ter o que se merece. Isso também ajuda a olhar para o futuro de maneira mais otimista, saudável e humana, e de maneira mais sensível para a necessidade de fazer e honrar limites.

9 e 10/12/2008

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Homens fortes

Que ritmo devemos imprimir em nossas vidas? Como devemos agir no desempenho dos diferentes papéis que nos cabem nesta vida? Motiva-me fazer esses questionamentos a percepção de que parece vigorar na sociedade uma visão do vamos fazer por menos, de que não devemos nos esforçar para fazer algo diferente, criativo, substancioso.

Sinto que esta visão se alia, perigosamente, à filosofia do “valorize o calendário do prazer, esqueça o calendário do sacrifício”. Viver dignamente virou um sacrifício, algo a ser evitado a qualquer custo, enquanto viver intensamente o que pode ser hedônico, ainda que ilegal e imoral, deve ser priorizado.

Parece que há um grande contrato social em favor do hedônico e que sacrificar-se para autotransformar e a construção de uma trajetória de vida digna não têm artigos específicos nesse contrato.

Na maioria das vezes, o que vemos na frente são pessoas fracas. Esses questionamentos podem parecer bobos, ultrapassados, mas ainda não vi qualquer aperfeiçoamento ocorrer sem reconhecimento da necessidade do mesmo, dedicação à mudança, aprimoramento das habilidades, foco e concentração. Mas, continuamente, vejo os resultados positivos do aperfeiçoamento, alguns ótimos isolados, eu diria. Sempre me questiono: onde queremos chegar? Por que existem pessoas tão diferentes?

Decididamente, o que difere as pessoas não é a raça, origem ou gênero, isso apenas as iguala, como o faz a probabilidade da dor, fato inexorável dada nossa finitude e vulnerabilidade biológica. Penso que, já que estamos expostos a perdas, e que não dá para fechar a fábrica de dor, o que nos diferencia é a coragem para ser feliz; coragem para, mesmo com contratempos, abrir, e lutar para manter aberta a fábrica de alegria que Deus dá a todos quando nascem. De fato, sempre admirei pessoas que acreditam na força da alegria, que são mais orientadas à alegria e à convergência do que a dor e à divergência. Deve ser em função dos propósitos, pois essas pessoas fazem a diferença. Pessoas com o propósito da alegria são diferentes, tornam o mundo melhor. Coragem para ser feliz! Esse propósito me parece interessante.

Como localizar essa suposta orientação à alegria dentro dos contextos que explicam a minha indignação? Qual a integridade e nobreza desta alegria? É uma alegria natural ou imposta pela propaganda a esses “reféns do agora” que convivem conosco? A incoerência e inconsistência típicas do comportamento dessas pessoas me sinalizam que seus propósitos são muitos semelhantes. Eles parecem alegres, para cima, contentes, despachados etc., mas surgem as questões: quanto dura essa alegria? Essa proposta de gestão é sustentável para a fábrica? Quanto essa alegria demanda de recursos materiais e de saúde física e mental para ser mantida? O preço é medido em dinheiro? A fábrica foi aberta com o intuito de tornar nossa trajetória mais agradável e inclusiva? Neste final de semana foi ficando claro para mim: a boa fábrica tem que ser humana, não pode degradar o meio-ambiente, tem que usar recursos renováveis e, acima de tudo, tem que ser feita para durar! A verdadeira alegria dura! Ela contagia com naturalidade, inclui, ensina.

Tudo isso me ocorre ao assistir aos dolorosos momentos que muitos vivenciam. Minhas reflexões tomam outro rumo. A figura serena e responsiva dessas pessoas em meio ao espetáculo da dor sinaliza para mim as pistas que levam à diferença entre pessoas. Penso: “eles são homens muito fortes! Estão quebrados, mas completamente disponível à causa que se propõem. Visito a trajetória dessas pessoas e vejo toda disposição à luta que nunca se resumiu aos seus próprios benefícios pessoais ou a um agora comercialmente produzido. Eles nunca foram de ocasião, sempre foram perenes.

Apesar da dor, para mim é fácil concluir que a qualidade dos resultados das pessoas está relacionada à qualidade dos princípios e propósitos que possuem. Penso: por que ter homens fortes se os propósitos hoje são cada vez mais fracos, estanques? Quem quer ter um projeto de família, com todas as privações, sacrifícios e riscos envolvidos? Quem quer investir num projeto de longuíssimo prazo? Quem quer lutar incondicionalmente pela alegria e estar disponível ao outro na sua dor? Isso é para homens fortes! Homens com princípios e propósitos tão fortes quanto suas crenças na vida. Homens cujas trajetórias de vida são marcadas por um senso de responsabilidade e coerência irrepreensível. Homens que sofrem, choram, mas que nunca deixam a fábrica de alegria fechar, pois são seus maiores acionistas.

Muriaé, 2007

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Os casamentos que se desfazem mexem fundo com a ponta de insatisfação que tenho com meu casamento. Onde está a emoção do nosso casamento? Será que não podemos fazer crescer uma chama que brota pelos olhos, perturba o corpo e informa à alma que é hora de brincar? Nós não brincamos de ficar juntos, de estimular a saudade da pele, de justificar, pela esperança de um afeto gostoso, a chegada dos minutos que passaremos juntos como eu sendo “o seu homem” e você “a minha mulher”. É mais do que ser esposo e esposa.

casa 668 – a, Seropédica, 04/03/2008

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Ela, ele e os outros

Veio solteira, saiu noiva. Espanto geral. O que aconteceu? Será que enlouqueceu? Mas como pode, será que não pensam? Que farão para viver? De certo terão que sobreviver.

Louca, ela ficou louca.

É louca, nós sabíamos. Esqueceu-se que é mulher. Vive atrás do melhor, do novo, do prazer total. Perdeu o juízo, ensandeceu. Procura no homem, o que só Deus pode lhe dar: a satisfação desvairada, arrogante, vive sorrindo, cheia de alegria.

Não poupa ninguém, contagia a todos com aquela descarga de alegria. Dada. Toda dada à loucura, doou-se à lascívia, perdeu o controle sobre a mente. Está nua, flancos abertos para quem mereça possuí-la.

Do mundo, não tem paradeiro, está em todos os lugares. Basta falar em prazer que logo se exalta, faz malas, cai no mundo. Vai atrás dele. Outro louco, mais louco ainda. Profano, corajoso, ilusório, incerto. Ele é quem foi atrás dela. Os dois se merecem.

Sujeito presunçoso, nada teme. Entrega-se a procura, como a escuridão à luz. Esquece os riscos, se expõe, se mostra. Vive de sonhos, ilusões e fantasias. Mas é real, posso ver ele nele. Ele está por trás dele, é fácil vê-lo, é vulnerável.

Perigoso, subversivo, subverte nossos sentidos com essas palavras de satisfação. Faz dela vitima de sua conspiração contra a ordem do nosso mundo. Provocante, perigoso, vive buscando evidência. Só pensa em se mostrar, está querendo aparecer.

Ninguém aqui precisa disso. O que tiver de ser, será, independente das nossas vontades.

Mas ela não é santa, tem culpa. Bastava não aceitar, bastava ser mulher: viver o certo, o conhecido. Renegou a vida, lançou-se na roda-viva do mundo.

Os dois se merecem, feitos um para o outro. Profanos, perderam a vergonha. Nem parecem humanos, vivem intensamente.

Ela está nele, ele nela, eles são; não vieram apenas para estar. Acontecem em qualquer lugar, sem forçação. Espontâneos, originais, incomodam demais. Pessoas estranhas, brilham demais, nos ofuscam. Suas luzes afetam nossa escuridão.

Deixem-nos aqui; como está, está muito bom: os caminhos estão escondidos. As luzes esclarecem tudo, mas não queremos nada claro. É claro, ódio à luz. A luz é neles resultado dessa satisfação criadora da nossa insatisfação.

Parem, não precisamos saber de nossos corpos, nossas mentes, nossos sonhos! Nossa vida é isso ai: um paraíso sem vocês, nada acontece. Estamos protegidos .

Ansiedade, só produzem isso. Sem eles não precisávamos ficar pensando no que fizemos, ou se teremos chance de fazer alguma coisa.

Onde pensam que vão chegar? Nunca param, entregam-se um o outro a todo momento, sem pudor. Integram-se totalmente, se perdem nessa loucura de viverem eles mesmos.

Vivem livres, sem preocupação. De certo não sabem das horas, não sabem da onde vieram. Vivem atrás de algum lugar. Querem ser como Deus.

Pedantes, não se humilham ao senhor. Olham para ele de cabeça erguida. Dirigem-se a ele com facilidade, não temem sua fúria.

27/09/94, alteração feita em 28/12/2008

-----//--- marco bauhaus ---//-----

Para saber se o amor se foi ou se ele nunca esteve presente na relação, basta olhar para os conteúdos dos pedaços de papel que rabiscamos durante o dia, de preferência, analise os que rabiscamos nos bares. Eles denunciam muito do que queremos e pensamos, mas pela falta de coragem ou de oportunidade deixamos de externar.

Esses papéis dizem muito sobre a vida de um casal. Um excelente indicativo de que há espaço para novas incursões solitárias pela vida é se a pessoa escreve muitas vezes, e com diferentes tipos de letra, o próprio nome. Nesse caso, o papel faz o serviço de espelho, pois, ao invés de registrar, apenas reflete o que a pessoa vê.

Estes rabiscos nos levariam, invariavelmente, à percepção de que o não síncrono é uma verdade absoluta da vida. As coisas acontecem com tempo certo para durarem, havendo desdobramento ou qualquer elemento que sugira continuidade. Reportamo-nos ao que passou porque temos a impressão de que o perdemos. Escrevemos sobre o que pode vir, porque acreditamos que nunca tivemos.

Para saber se o amor se foi ou se nunca esteve presente na relação basta prestar atenção em alguns eventos ou coisas que foram o nosso dia-a-dia. O primeiro evento, e um dos mais importantes, é se ainda lembramos de perguntar a nossos parceiros ao encontrá-la à noite como foi o seu dia. Se sai naturalmente é um bom sinal; agora, se sai espremido, fruto daqueles lampejos oportunistas de memória da relação que todo culpado sente é algo a se pensado. Se isso nunca foi perguntado, significa que nunca houve amor.

A questão é: de que vale a pena uma relação ou a vontade de compartilhar nossa energia vital se ninguém se importa com o que fazemos e se não nos importamos com o que os outros fazem? De que valeria doarmos o que temos de mais sublime se ele não significaria nada para ninguém.

2005

-----//--- marco bauhaus ---//-----

O crime da criação

Para nascer o escritor é preciso matar o diarista, abandonar a primeira pessoa no seu devido lugar de solidão e na oração e abrir espaço para que outras pessoas possam viver no cenário da criação.

O diarista sufoca o escritor, ele o prende numa sala de espelhos e o convida para escrever sobre o que vê. O escritor enlouquece, morre de inação mesmo estando com a barriga cheia de si mesmo. Parece um suicídio, um lento processo de auto-envenenamento, onde as doses são tomadas diariamente e devidamente registradas.

O diarista nega vida aos outros. Só o escritor tem poder para fazer com que outras pessoas vivam; que elas tenham suas identidades reconhecidas e legitimadas. Para o diarista, o outro é uma abstração, uma peça de adorno na sua esquizofrênica necessidade de se auto-registrar e de se ler. O diarista só tem olhos para si mesmo, para sua imperiosa trajetória, eventualmente marcada pela aparição de alguém, mas que logo fica em um trecho ou parte sem ter ocupado mais do que duas orações de uma página do seu diário. É sempre assim: os outros vêm, apenas figuram, e logo se vão. Tudo devidamente registrado.

O diarista é um assassino. Ele mata o escritor. Mata os outros quem quer que sejam eles. Conforme escreve, ele vai matando a todos, empobrecendo e esvaziando o cenário da vida, abrindo espaços para que a primeira pessoa cresça ainda mais nos textos: só seus sentimentos importam, apenas suas interpretações prevalecem. E essa pessoa cresce sem alegria ou autonomia alguma, sem autenticidade, sem troca ou reciprocidade, porque só quando falam dela é que ela deixa de ser um eu, a primeira e única pessoa que o diarista reconhece: ele próprio. O diário deixa de ser uma peça de criação para virar um boletim de ocorrência, o rascunho da quase obra suprema da individualidade e do narcisismo humano.

Mas uma obra literária de verdade só nasce se houver um crime, o da criação, quando o escritor mata o diarista, ou melhor, quando ele o solta no mundo, o insere na vida, libertando-o da masmorra da auto-adoração, mostrando-lhe o espaço em que todas as pessoas vivem, interagem e constroem suas histórias como podem, enfim, o espaço onde seguem suas trajetórias.

E assim a vida vai seguindo, página por página, crime por crime, até que possamos viver igualmente, sem prisões, penas ou torturas específicas implantadas pelo ditador supremo: o eu mesmo, o diarista.

22/06/2008 Modificado em:

27/06/2008; 01 e 02/08/2008;

5 e 7/10/2008 e 14/11/2008

-----//--- marco bauhaus ---//-----