Domingo, 19 Nov 2017
Banner

Usuários Online

Nós temos 79 visitantes online

Usuário cadastrado



   
PDF Imprimir E-mail

Apresente-se pela aparência. Despeça-se pela inteligência.


“Apresentar-se pela aparência e despedir-se pela inteligência” é um convite que faço em todas as apresentações públicas que realizo. Um convite para pensarmos nossa vida enquanto trajetória a ser edificada, e não como o resultado de oportunidades que simplesmente apareceram; um convite para irmos alem das aparências, deixando nossa inteligência como o principal registro da nossa passagem pela vida.


Virou o slogan da minha cruzada contra o que batizo de “epidemia do marketing pessoal”. Epidemia, pois é um padrão de pensamento e de comportamento que se difunde com abundância e rapidez. “Aprenda a vender a sua imagem” ─ é a expressão ilustrativa desse processo epidêmico. Perda do bom senso, da noção de limite e da espontaneidade são os sintomas mais comuns desse mal que empobrece consideravelmente a convivência, a cena social, pois as pessoas infectadas se artificializam com o uso de “táticas para ser dar bem”. Elas viram mercadoria, perdem sua naturalidade, além de ficarem míopes para outras dimensões da experiência humana que precisam ser aperfeiçoadas.


Um site sobre o tema sugere:


“Marketing pessoal é o ato de um indivíduo ir modificando seu comportamento e sua forma de agir, visando um melhor posicionamento no mercado, em empresas que lhe interessam... O individuo precisa desenvolver técnicas para poder divulgar sua imagem, sua competência e utilizar seus contatos para chegar onde quer”i .


Lançando mão de outra metáfora, podemos dizer que há um verdadeiro exército de adoradores do marketing pessoal, reforçado a cada dia por pessoas que buscam cegamente por afluência social; que seguem detidamente estranhos manuais para transformação de pessoas comuns em verdadeiros estrategistas. Pessoas que se comportam na cena organizacional (empresas) e na cena social como se fossem atiradores de elite: implacáveis, assertivas, orientadas para resultados, indisponíveis para as trocas de afetos ou para os mais comezinhos atos ou momentos de sensibilidade. Alguns, na ânsia de promoverem, apelam para os espetáculos. O pior é que boa parte da sociedade quer espetáculo.


Esse exército ajuda na manutenção da ascendência das organizações sobre a vida comum. Nossa vida já está tão dominada pela vida nas organizações! Levamos para dentro de casa a linguagem e preocupação que temos nas empresas. Metas, objetivos, planejamento, redução de custo, logística da casa etc.. Transformamos o lar em empresa. O que temos em casa, e que possa ser levado para as organizações e influenciá-las? As empresas nos ouvem? Essa influência da vida na organização sobre a vida no lar é inevitável, mas devemos começar a recobrar as fronteiras entre esses dois mundos.


Ao invés de ficarem atrás de dicas e sortilégios que resolverão todos os problemas profissionais de suas vidas, alçando-as sempre as melhores posições, sugiro as pessoas que procurem ser mais substanciosas. Existem muitas coisas diferentes para aprender a fazer e muitos sentimentos positivos para experimentar e compartilhar. Isso nos dá mais substância, nos enriquece, e ajuda a deixar o viver mais saboroso. Fundamentalmente nos torna mais capazes para enfrentar as adversidades, desafio este que a vida na empresa não nos prepara para enfrentá-lo. Na cena organizacional, lutamos pelos interesses da organização, predomina o escopo. A cena social é mais ampla.


Sugiro as pessoas que passem a se preocupar com a construção de uma trajetória de vida, ao invés de ficarem obcecadas em coisas pontuais, metas específicas, ganhos milimétricos em carreiras. Ao adotar a perspectiva da trajetória, vemos que nossa vida compreende muito mais que nossos desejos e expectativas profissionais. Uma vida é sempre mais ampla e profunda que um evento ou passagem dela. Nossa realidade profissional é apenas uma parte da vida que podemos ter, das coisas que podemos fazer. Assumindo o desafio de edificar nossa trajetória, temos uma noção mais clara de como a qualidade da nossa aprendizagem explica com mais segurança o que somos, temos e vivemos. É bom não esquecer: “Empresas são reestruturadas. Marcas são rejuvenescidas. Pessoas envelhecem, fenecem”.


É importante reconhecer que vivemos na sociedade das organizações, ou seja, nossa vida gira inexoravelmente em torno de algumas organizações: empresa, igreja, associações de classe, clubes etc. Na maioria das vezes, a nossa trajetória acaba se confundido com a trajetória dessas organizações.


Também é importante reconhecer o significado do trabalho para o indivíduo. Disse Gonzaguinhaii :


Um homem se humilha / Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida / E a vida é trabalho
E sem o seu trabalho / Um homem não tem honra
E sem a sua honra / Se morre, se mata.


Almejar uma vida melhor; sentir-se produtivo; assumir a liderança; tomar decisões complexas; promover mudanças, todas essas são coisas extremamente importantes na trajetória de uma pessoa. A vida em si cobra isso, não é exclusividade da cena organizacional, do mundo do trabalho. Viver demanda do indivíduo que este se prepare, que esteja a altura dos desafios. Preparar-se exige tempo, atenção, sacrifício, paciência cuidado. Algo bem diferente do aprendizado extemporâneo de dicas e técnicas para “se dar bem” presentes nos manuais de marketing pessoal.


Finalizando, deixo um texto pequeno, escrito por mim mesmo, em 2002, mas bem que é bem ilustrativo da relação homem, fazer e vida:

 

O Negócio de Viver


Quem faz do negócio um negócio, tem tempo e dinheiro para viver.
Quem faz do negócio sua vida, não terá dinheiro que baste para chegar a viver.
Quem faz da vida um negócio, trocou-se por dinheiro, lançou-se no tempo.
Quem faz da vida uma vida, transcende a iminência do tempo e do dinheiro, dedica-se apenas ao negócio de viver.
A propósito, qual é o meu negócio?

 

O negócio dessa seção é mostrar que a aparência é importante, mas que a principal marca deixada por uma pessoa é a sua inteligência.

________________________________________

i http://emporiodosucesso.com.br/o-que-e-marketing-pessoal/

ii http://letras.terra.com.br/fagner/203645/

Voltar