Domingo, 19 Nov 2017
   
O Estudante PDF Imprimir E-mail

 

O estudo foi fundamental em minha vida, tanto pelas capacitações que adquiri quanto pelas pessoas que conheci, muitas fundamentais para a minha trajetória.

Tive o prazer de estudar em muitas instituições, todas elas baseadas em conhecimentos diferentes, fato que me deu trabalho, pois estudei muito, mas que me permite atualmente ser um professor de gestão com visão holística. Tem me favorecido bastante a confluência de saberes que posso aportar sobre os temas de aula no curso de Administração. Estudei na Escolinha do IZ (1975-1979), Fernando Costa (1980-1985), Clodomiro Vasconcelos (1986), Afonso Celso (1987), Colégio Técnico Universidade Rural–CTUR (1988-1990), UFRuralRJ (1991-1994), ESPM-RJ (1995-1996), PET-COPPE-UFRJ (1999-2000) e no CPDA-UFRuralRJ (2004-2008).

Enquanto estudante, reconheço, tive minha trajetória marcada por altos e baixos, mas com o tempo aprendi algo fundamental: regularidade. Um fato marcante na minha vida de estudante, algo que se manifestou de maneira mais intensa na pós-graduação, foi a consistência de comportamento no que diz respeito a leitura, freqüência em salas de aula, desenvolvimento de tarefas e produção de clippings, os famosos recortes de material em jornal e revistas. A partir de 1995, graças ao fascínio que o tema marketing exercia sobre mim, comecei a ter a regularidade como principal marcador do meu desempenho. Isso me permitiu fazer o mestrado em 12 meses e o doutorado sem muitos assombros. Influenciado por minha irmã, Cristina, uma campeã na regularidade em tudo o que faz, institucionalizei esse comportamento. No segundo-grau a regularidade era patrocinada pela estrutura integral do CTUR, muito estudo era necessário e em base diária. Na graduação, embora fosse curso de Administração Integral, conheci o sistema de créditos, um verdadeiro inimigo daqueles que precisam de regularidade, pois são muitas as opções, fato que acaba levando a hesitações e a algumas perdas de tempo.

 


 

CTUR - Colégio Técnico Universidade Rural – 1988-1990

Considero ter estudado no CTUR uma das principais decisões que tomei em toda minha vida. Sua importância pode ser medida pela sabedoria sobre a vida que o aprendizado da agropecuária proporciona, pela sólida formação geral que tive, pelos excelentes momentos que vivenciei lá, pelas amizades que me marcaram para sempre e por ter sido lá que fui apresentado aos conceitos de marketing. Também foi lá que surgiu o Bauhaus.

Acredito que todo ser humano deveria ter um contato próximo com a agropecuária, pois, apesar de toda tecnologia que possa ser aplicada, é a natureza quem está no controle. Aprendemos melhor sobre nossos limites e sobre nosso próprio devir observando o processo que vai do preparo da terra ao preparo do alimento dela retirada. Se entendermos que fazemos parte do processo, que nele estamos inseridos, aprendemos a nos relacionar melhor com o tempo e seu inexorável passar. Aprendemos a importância da sustentabilidade. O aluno de agropecuária do CTUR tem essa oportunidade as suas mãos. Digo que a aproveitei.

O CTUR também me deu a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas, com as quais muito aprendi e, felizmente, ainda aprendo. Sempre reconheci que todos os colegas que estudaram comigo do primeiro ao terceiro ano eram competentes, tinham grande valor, apesar de termos demorado a tomar consciência disso. O calor da juventude nos impelia a muitas ações que poderiam ter sido previamente pensadas, apesar da nobreza do objetivo. Mas essa riqueza de conhecimento pode ser observada hoje em dia pela vida digna que levamos, pelas conquistas que vamos alcançando diariamente. Quando nos encontramos temos sempre o prazer de ouvir sobre os feitos e os sorrisos são provas marcantes dessa realidade. O CTUR produz vitoriosos, isso é inegável.

Como gratidão a essa fantástica experiência que pude viver, abro esse espaço para compartilhamento. Nela coloco alguns registros dos nossos grandes momentos de 1988 a 1990. São desenhos, textos, elementos que representam a intensidade do que vivemos no Colégio Técnico Universidade Rural, o CTUR. Espero que mais pessoas mandem seus registros e que breve façamos um DVD comemorativo.

 


 

UFRuralRJ – Administração de Empresas – 1991-1994

No curso de Administração de Empresas da UFRuralRJ eu fui atrás de melhores condições para edificar a tão sonhada carreira em marketing, aproveitando a experiência do CTUR. De fato dei mais atenção a este desejo do que a minha própria transformação em Administrador de Empresas, um profissional que pode sair da faculdade com mais capacitações do que apenas em marketing. Dispendi três anos e meio de muita energia para saber mais sobre marketing, e fiz vários cursos em paralelo a universidade, situação que me levou a negligenciar uma melhor formação na área contábil-financeira. Paciência. O importante é reconhecer o erro numa tomada de decisão e aperfeiçoá-la para o futuro.

Estudar Administração de Empresas na UFRRJ no início da década de 90 foi um grande desafio, tanto pelo contexto externo como pelo contexto interno. Naquela época, uma vaga de estágio era altamente disputada, pois não eram tão comuns, e quando apareciam provocavam enorme fuzuê. O entorno da Rural sempre foi muito pobre de empresas, e as oportunidades sempre vinham de longe. Atualmente é tudo diferente, pois o crescimento brasileiro tornou a região imediata bem próspera, digo a cidade do Rio e a de Itaguaí. Internamente, é preciso destacar que a UFRuralRJ nunca aproveitou bem o fato de ter um curso de Administração de Empresas. Parecíamos estranhos no ninho, jogados no ICHS, onde tínhamos a maioria absoluta das disciplinas, algo bem diferente dos outros cursos, que tem disciplinas por quase todos os institutos. O curso era pequeno, coisa que mudou com o tempo, a ponto de nos tornarmos o maior curso da UFRuralRJ. Para muitos isso é motivo de orgulho, mas não compartilho muito desta visão, pois crescemos horizontalmente, abrindo novas turmas, ao invés de crescemos verticalmente, abrindo mestrado e doutorado, consolidando-nos como atores de ensino, pesquisa e extensão. Nosso currículo, à época, já estava bem defasado, reflexo de uma universidade não acostumada ao ambiente de negócios.

A turma de 1991, primeiro semestre, foi sensacional. Tínhamos uma característica interessante: alguns vieram do vestibular interno, outros vieram remanejados do vestibular da UFJF, por exemplo. Tempos difíceis aqueles! Mas gostei bastante do ritmo que estabelecemos, marcado por vontade de desenvolver e participar de eventos, de fazer cursos de extensão e de organização do diretório acadêmico. Havia uma real vontade de marcar aquela passagem pela UFRuralRJ, e muitos tinham mesmo experiência nas empresas de seus pais (Vanderlei, Ademir) e em seus próprios negócios, como o Alexander Machado. Sob a liderança e empreendedorismo do Glauco Tavares e da Célia Regina muitos cursos foram desenvolvidos e muitas visitas técnicas foram feitas, um diferencial visível àquela época. Havia a presença dos colegas que vinham de outros Estados, como o Jairo Rivelino, amazonense, nosso craque de futebol, a Liamar, mineira de Juiz de Fora. De lá vinham também o Leonardo e a Helida. Tinha a Zanza, a Simone Pascoal, Luciana Terra, Maria do Socorro, Márcia e mais, muito mais. Vínhamos de Valença, Volta Redonda, Nova Iguaçu, Mendes, Paulo de Frontim, Paracambi, Campo Grande, Santa Cruz e outros bairros do Rio e de Itaguaí. Éramos um grupo eclético, uma verdadeira riqueza cultural e passamos com dignidade pelas turbulências iniciais do plano Real e pela maneira como o governo tratou a universidade federal naquela época. Quantas greves! Quantos dias naquele bandejão de não deixar saudades!



ESPM-RJ, Pós-graduação em Marketing 1995-1996

Fazer pós-graduação em marketing na Escola Superior de Propaganda e Marketing, entre 1995
E 1996, foi uma experiência e tanto. Primeiro destaca-se o fato de termos estudado na antiga sede da Teófilo Otoni, 44. Era duro achar lugar para estacionar ou lugar bom para comer. Não dá saudade aquele elevador, nem aquelas salas pequeníssimas que freqüentávamos. Mas dá saudade daquele grupo de pioneiros! Pioneiros porque estudar marketing em 1995 foi uma grande façanha, dado que não havia tantas oportunidades e material sobre essa fantástica profissão como se tem agora e que nossos professores, na sua grande maioria, não tinham preparo para dar aulas. Sofremos um bocado, mas começamos a entrar em contato com as estratégias de marketing através do grande auxílio de profissionais do mercado, sim, muitos deles oriundos mesmo da área comercial, não da área de marketing. O que aprendi ali contribuiu bastante para meu início de carreira como professor em 1999. Usei bastante aquele material que nos era dado. A profissionalização da função gerencial marketing nas empresas começava mesmo naquela época. Hoje vemos uma profusão de MBA, coisa rara aquela época, e muitos professores-doutores.

O grupo de alunos era extremamente diversificado, com pessoas donas de seus negócios, profissionais liberais, funcionários de grandes empresas e de empresas públicas renomadas. A experiência e diversidade cultural marcavam aquele grupo, acredito mesmo que eu era o mais inexperiente. Mas tínhamos duas aulas: uma com o professor, e a outra na troca entre os amigos, nos bastidores. Cresci muito ouvindo e convivendo com aquelas pessoas e não posso me esquecer da formatura que fizemos no Meridien, uma inovação. Também não posso me esquecer dos chopes que tomávamos em algumas quintas-feiras, oportunidades nas quais eu tinha que sair correndo para pegar o último ônibus para Seropédica, na Central do Brasil. Sair de Seropédica para chegar as 18:00 horas no Rio de Janeiro me proporcionou tantas aventuras que meu apelido era Forest Gump, o contador de histórias. Eram muitas as histórias, uma loucura mesmo desbravando de ônibus ou de carona a distância entre a UFRRJ e a ESPM. Tenho muitas saudades daquele pessoal. Fiz grandes amigos, algumas pessoas são muito especiais para mim. Aqueles dias vieram para marcar toda a minha vida, tenho certeza disso. E reencontrá-los é um dos objetivos desse site.

PET-COPPE-UFRJ – Mestrado em Engenharia de Transportes – 1999-2000

Fazer o mestrado em Engenharia de Transportes no PET-COPPE-UFRJ consolidou minha trajetória profissional enquanto professor, pois acabei virando professor. E complementou um ciclo bem interessante de aprendizagens que eu vinha experimentando desde o segundo-grau: estudei agropecuária, fiz Administração de Empresas e especialização em marketing.

Com os ensinamentos do mestrado eu aprendi os desafios do crítico encontro entre o estabelecimento das atividades sociais, econômicas e culturais, isto é, o uso do solo para os mais diversos fins, e a necessidade de planejamento do sistema que gerencia e viabiliza o fenômeno do transporte derivado do desenvolvimento, pela sociedade, das mais diversas atividades. Sai do aprendizado relativo ao universo organizacional, o mundo das empresas, e fui para o entendimento da repercussão do que fazemos sobre o sistema de transporte.

Acredito que estudar Engenharia de Transporte na COPPE fornece uma formação estrutural, quase que completa. Aprendemos sobre planejamento, gestão operacional, segurança e intervenções técnicas drásticas na realidade das cidades e do país como um todo, pois o sistema de transporte e as políticas e práticas de uso do solo determinam radicalmente a maneira como se vive, enfim, determinam as possibilidades e o custo de transformação desta. As decisões de transporte e uso do solo, uma vez tomadas sem interação, promovem situações difíceis de serem gerenciadas. Basta ver a opção errônea do Brasil pelo sistema rodoviário, em detrimento ao sistema ferroviário.

Atualmente nos deparamos com o desafio de transformar algumas cidades brasileiras para que elas consigam promover eventos significativos, como as Olimpíadas e a Copa do Mundo. A maior parte dos desafios está relacionada a decisões do sistema de transporte e políticas de uso do solo, coisas que, infelizmente, são decididas por políticos e não por profissionais capacitados. O planejamento será informado pelo interesse político, não necessariamente pela realidade técnica e tecnológica. Bem, sabemos bem da qualidade dos nossos políticos, da competência que eles têm para promover vida no campo e nas cidades aqui no Brasil. Basta-nos esperar e torcer pelo Brasil. Esse é outro aprendizado que tirei na COPPE: torcer pelo Brasil, porque envolver-se com o fazer político nacional gera muitas frustrações, angústias e uma descrença total de que pela política faremos algo de bom para esse país.

Minha trajetória no PET-COPPE foi bem interessante: entrei para fazer mestrado em transporte de cargas, especificamente em sistema logístico para empresas de gás, de GLP. Enquanto estive na Supergasbrás, vi que a competitividade futura no setor não estaria apenas no marketing, no branding, mas no aperfeiçoamento do sistema logístico. Chegar primeiro a casa do comprador, ou ter estrutura de relacionamento com ele, mapeando seu comportamento de consumo de gás, entregando-lhes soluções, pareciam-me essenciais para bater os concorrentes. Em 1998, o setor, como hoje, dependia de depósitos de gás gerenciados de maneira muito desestruturada, com profissionais e aporte tecnológico que não levariam a desempenhos baseados em confiabilidade, rapidez, qualidade e custo competitivos. Vi no PET-COPPE-UFRRJ a oportunidade para aprender mais. Infelizmente não pude conhecer minha orientadora, Lourdes Zmetk. Granja, falecida em 1998. Tranquei o curso e voltei em 1999, quando tive a oportunidade de trabalhar com a professora Milena Bodmer, da área de planejamento de transportes, que me apresentou a temática de gestão das empresas de transporte público. Fiz meu mestrado em ações de comunicação de marketing de empresas de ônibus urbano, um trabalho simples, mas eficiente para revelar algumas das facetas gerencias do sub-sistema que domina o sistema de transporte no Brasil, o sistema ônibus, que muita influencia, e negativamente, a condução de nossas vidas.

A turma mesclava experiência com juventude: tinha pessoas com trajetória acadêmica, de empresas, e pessoas vindas de órgãos públicos e empresas ligadas ao transporte. Tínhamos Engenheiros, Arquitetos, Psicólogos, Contabilistas, Geógrafos, Administradores etc. Além da diversidade cultural, porque tínhamos muitos colegas oriundos do Norte Brasileiro, verdadeiros guerreiros, admiráveis. Particularmente fiz amizade próxima com o Aurélio Braga e com o Paulo Isensee, pessoas que foram fundamentais para que eu terminasse o curso, pois me ensinaram coisas que não sabia, davam-me carona, conselhos, e por vezes bancavam meu almoço e lanche. Diferenciado também foi o convívio com os professores, tínhamos boa acessibilidade a eles, de maneira que a mobilidade durante o curso não ficaria comprometida. Os encontros do ANPET mostravam bem essa interação diferenciada, assim como os incontáveis cafés no restaurante Burguesão. Além disso, é importante lembrar o entusiasmo e vitalidade do professor Amaranto Lopes Pereira!

CPDA-UFRuralRJ – Doutorado em Ciências

O Programa de Pós-graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA) é um programa interdisciplinar de ensino, pesquisa e intercâmbio em Ciências Sociais aplicadas ao conhecimento do mundo rural. Com o doutorado, fecho um ciclo de aprendizagem que me permitiu entender melhor a complexidade existente no caminho que vai da planta ao prato, isto é, do mundo rural, da produção agropecuária ao mundo urbano, mundo dos supermercados, da densidade populacional e dos serviços de alimentação. Mundo este onde diariamente milhões de pessoas saciam sua fome, e outras tantas ficam sem ter a mesma chance.

No CTUR estudei como plantar e colher. Na graduação estudei como administrar. Na ESPM estudei como vender melhor o que produzo. No PET-COPPE estudei que sem sistema de transporte o que é plantado ou não chega ou sai muito caro. No CPDA estudei sobre todas as problemáticas e contradições do mundo rural, mas também sobre as políticas públicas, instituições, regulações e os mercados que surgem com velocidade espantosa. Assim como no PET-COPPE, um aprendizado estruturante, fundamental para entendimento do mundo e da sua complexidade. 

Tive o grande prazer de conhecer e ser orientado pelo professor John Wilkinson, figura admirável. Começamos conversando sobre supermercados, mas com o tempo acabei indo para o mundo dos alimentos funcionais. Posto de maneira geral, meu trabalho final abordou como que os interesses da indústria de alimentos poderão afetar a maneira como nos alimentamos. Cada vez mais recebemos informações que nos impelem a ver o alimento como remédio - o que explica o porquê do termo alimentos funcionais -, ofuscando a velha e sábia máxima: a boa alimentação é um caminho para a produção de saúde. Logo estaremos expostos a mensagens comerciais sugerindo as maravilhas dos novos alimentos que a indústria pode nos trazer.

Na linha de Instituições, Mercado e Regulação tive contato fundamental com os novos padrões de demanda alimentar, com os novos mercados que emergem no sistema agroalimentar, e com a maneira como os distintos atores desse sistema se coordenam para atingir suas metas. Mas no CPDA, como um todo, aprende-se muito sobre o encontro entre o mundo rural e o urbano, sobre cultura, movimentos sociais, natureza e saberes.

Estudar ali, no centro do Rio de Janeiro, é um privilegio, e desfrutei deste ao de pessoas que formavam uma turma muito eclética. Tínhamos professores da Rural, funcionários do IBGE, BNDES, ativista em ONG’s, representantes do MST e excelentes estudantes recém chegados do mestrado. Tínhamos pessoas de muitos estados do país, uma massa crítica de experiência, saberes e expectativas que tornavam todo cafezinho ou chope uma verdadeira conferência. Em relação a estas, meu companheiro de luta foi o Marcus José, do IBGE, parceiro de muitos cafés e chopes. Evidentemente, é fundamental lembrar que as festas em Santa Teresa são tudo de bom.