Sábado, 18 Nov 2017
   
Os Diferentes Significados de Viver Seropédica PDF Imprimir E-mail

 

Seropédica: o que temos entre o sonho a realidade?

Embora o carinho que temos por Seropédica nos estimule a pensar diferente, “viver Seropédica” torna-se, ano após ano, algo muito difícil. Algo bem distante dos sonhos e ideais que nos embalaram anos atrás para buscar uma emancipação e ver a cidade querida com o seu potencial para o desenvolvimento confirmado. É fato: muito do que sonhávamos que seria bom para nós se nos emancipássemos de Itaguaí não suportou o encontro com a realidade. Algumas questões viraram pesadelo.

Para tratar dessa questão, vamos usar dois exemplos: desenvolvimento e configuração de uma cidade. Acreditávamos que, uma vez emancipados, a realidade social e econômica melhoraria, isto é, veríamos novos negócios (indústrias) aparecendo e, automaticamente, o padrão de renda da população melhoraria. Também achávamos que constituído um novo poder público, uma nova ordem ou lógica de gerir aquilo que entendemos por cidade, daríamos uma nova cara para Seropédica. Teríamos uma cara de cidade e não de segundo distrito. Fato objetivo: não temos nem cara de um segundo distrito, pois Itaguaí está bem diferente atualmente, nem conseguimos vencer o estigma de cidadezinha que cresce a beira da estrada. Tudo ainda acontece à beira da estrada: banco, fórum, hospital, subprefeitura etc.

A realidade mostra-se impetuosa com alguns dos nossos mais caros sonhos e, atualmente, temos uma cidade sem cara de cidade e com sua dimensão social e econômica entremeada por uma grande nuvem de incerteza, algo difícil de ser claramente visualizada e, portanto, definida. O poder público não nos apresenta um projeto de cidade, algo que nos leve a olhar para o futuro e erguer alguma esperança. Por vezes, até esquecemos que temos prefeitura, mas vemos com facilidade ocupantes de cargos públicos construir sua trajetória pessoal as custas das nossas esperanças.

Do ponto de vista prático, quem “vive Seropédica” não tem uma experiência forte e positiva de cidade, pelo contrário, tem uma experiência fragmentada, algo inconsistente, com poucos altos e muitos baixos. Ninguém percebe que aqui tem um poder público que se faz presente e que coordena o dia-a-dia, regulando, orientando e disciplinando as interações entre os diferentes segmentos da sociedade. Vejamos alguns exemplos. Comecemos pela relação entre moradores permanentes e os alunos da UFRRJ (moradores temporários). Os alunos tem sua vida noturna cada vez mais movimentada, com grande freqüência de festas seja em clubes seja em casas. São festas que, geralmente, ocorrem com som alto, avançando na madrugada, horário em que os moradores estão descansando. Muitos trabalhadores vão sair bem cedo para pegar um ônibus. Aos moradores resta chamar a polícia. Precisava ser assim? Não, não precisava. O poder público poderia unir-se a Universidade e a Polícia para, em conjunto, fazer campanhas de conscientização, promover uma integração entre as partes para que suas realidades fossem conhecidas mutuamente e que seus anseios e interesses pudessem ser coordenados. Está mais do que na hora, pois a Rural aumentou seus cursos de 23 para 42 nos últimos 4 anos! Isto significa que teremos muito mais alunos residindo temporariamente por aqui e a ocorrência/promessa de muito mais conflitos.

É apenas um pequeno exemplo. Mas o que esperar de um poder público que não coordena a produção de ruído mesmo no fim de semana? Os quiosques, bares e clubes da cidade produzem ruídos sem qualquer controle, afetando de maneira bem objetiva o sono das pessoas. Esta prática gera o comportamento sem controle, pois as pessoas fazem o mesmo em suas casas e carros, esquecendo-se do outro, o vizinho, o colega ao lado que gostaria e tem todo o direito de estar em paz. Por que falar em controle ruído? Porque somos uma cidade universitária, correto? Precisamos ter paz para estudar, condições para aprender. Isto pelo menos na teoria.

E o trânsito? Atualmente prevalece o que cada parte entende que deve ser o certo. Por exemplo, não temos nenhum controle do tráfego nas ruas, algo que disciplinasse o uso das vias por pedestres, bicicletas, motocicletas, carros, ônibus e caminhões, evitando situações de riscos de acidentes, danos a propriedade privada e aos bens públicos. Cada um faz o que quer e na hora que bem entender. O pedestre e o ciclista não tem proteção, nem campanhas de conscientização sobre como se comportar. Os motociclistas acreditam que o tempo deles é o mais importante e não respeitam pessoas e veículos em manobras. Os motoristas de automóvel param onde bem entendem. Os motoristas de caminhões não tem faixas ou horários reservados para estacionarem. É fácil sentir o que está sendo escrito: ande no calçadão em um sábado, principalmente perto dos supermercados. Poderíamos falar da coleta de lixo, da saúde etc. Fiquemos por aqui.

E o desenvolvimento da promissora cidade, cortada por rodovias e ferrovias, o que constitui um dos maiores índices de acessibilidade logística do estado e mesmo do país? Cidade que tem uma grande universidade federal. O desenvolvimento ainda não veio e corre o risco de não vir. Estamos aprendendo o que alguns estudos já apontavam: ter índices bons para crescer não significa que isso ocorrerá. Pois entre o sonho e a realidade residem a vontade política, competência técnica e boa fé (envergadura moral) de quem nos governa e legisla. No caso de Seropédica, os três itens anteriores apresentam resultado sofrível, lastimável. Sugerem isso os boatos sobre a implantação do aterro sanitário. Para estar aqui tal aterro contou com a contribuição do poder público, precisou de aquiescência e assinaturas de vereadores, secretários municipais e do prefeito, algo que ocorreu a revelia do interesse da população e sob condições que não são divulgadas com transparência. Felizmente um grupo de políticos e lideranças locais está tentando lançar luz sobre os fatos, o que ajudou a revelar “quem” e “como” está associado ao projeto “lixo para Seropédica”. O que aparece apavora qualquer pessoa com o mínimo de bom senso: não há um bom estudo técnico, a relação entre poder público e o consórcio do aterro é obscura e o poder público não demonstra boa vontade para dizer não a essa atividade econômica.

No plano prático, a atividade econômica que virá para Seropédica é a manipulação de lixo. Ainda tem alguns fatos aqui e acolá (Coquepar etc.), mas tudo isolado, longe de representar um planejamento efetivo do poder público. Precisava ser assim? Não, não precisava. Dava para ser diferente, bastando que o poder público se aproximasse de atores que salvaguardassem os aspectos do lícito e do técnico (OAB, CREA, UFRRJ etc.) para desenvolver e apresentar um verdadeiro projeto de desenvolvimento local sustentável e coerente. Isso não acontece. Desta maneira, a cidade que tínhamos como grande potencial regional fica observando o seu entorno se transformar. É assim: quando Seropédica não fica a reboque do que acontece em outra cidade, chegando por ultimo à festa do desenvolvimento, ela toma uma decisão totalmente absurda, optando por receber o lixo dos outros. O irônico é ver o que o potencial logístico (ter muitas estradas) materializa para nós: somos uma cidade que envia areia para todo o Rio de Janeiro e logo receberá o lixo de grandes cidades ao redor. Esta é a figura que ilustra o ciclo que dinamiza o nosso (sub)desenvolvimento!

 

 

A areia alimenta uma cadeia produtiva que vai agregar valor econômico para outros. Nossa areia, item barato (não renovável), sem muito valor agregado, ajuda a transformar o empreendimento de outras cidades, que ficam com a riqueza construída. Por exemplo, a Barra da Tijuca, onde o metro quadrado é um dos mais caros do Rio de Janeiro. Seropédica recebe o lixo dos outros, o subproduto indesejável do consumo das outras cidades, as externalidades negativas de outras cadeias produtivas. É fácil ver o problema: qual o índice de conhecimento, emprego e riqueza que essas atividades econômicas (lixo e areia) geram para nós? Nos dois casos, ficam evidentes os problemas, principalmente os buracos deixados pelos areais.

Para nós de Seropédica, e para os de fora, fica o grande aprendizado: entre o sonho e a realidade residem a vontade política, competência técnica e boa fé (envergadura moral) de que nos governa e legisla. Fato que é capaz de tornar nulo qualquer bom índice logístico ou presença de universidade federal.

Uma vez que o poder público de Seropédica faz a estranha opção por deixar um aterro sanitário desse porte vir para cá, ao invés de lutar por uma boa inserção da cidade na festa do desenvolvimento que o país vive, convém lembrar da contribuição de Zeca Pagodinho para pensarmos bem sobre o que reside entre o sonho e a realidade para Seropédica.

 

“Fui no pagode
Acabou a comida
Acabou a bebida
Acabou a canja
Sobrou pra mim
O bagaço da laranja
Sobrou pra mim
O bagaço da laranja”

 

Bagaço da Laranja/ Composição: Arlindo Cruz/ Zeca Pagodinho