Sábado, 18 Nov 2017
   
O Senhor das Fraudes PDF Imprimir E-mail

Quem, afinal, comanda o país?


Os sucessivos episódios de escândalos envolvendo homens públicos brasileiros (e demais funcionários públicos) e empresários (e demais funcionários de empresas) e o clima nebuloso com que investigação e julgamento ocorrem, suscitam uma questão interessante: quem determina o ritmo das coisas e tem (teve) capacidade para influenciar de maneira decisiva o dia-a-dia e o futuro de todos nós? Quem tem o controle do Brasil?


O tema não é de agora, pois forças invisíveis assolaram e desestabilizaram os governos de Getúlio Vargas e Jânio Quadros. Nomes, esperanças, atos administrativos, renuncias, CPIs, atentados, acidentes, doenças e mortes, viraram elementos construídos para a edificação de eventos que ocorreram em circunstâncias sempre recheadas de suspeitas e que jamais foram completamente esclarecidas. Recentemente o tema voltou a ganhar notoriedade com a ascensão de Lula à condição de dirigente do país. Seus opositores estimularam a onda de boatos sobre sua sujeição aos interesses de homens fortes, estrategicamente colocados em cargos importantes do Estado. José Dirceu, ministro da Casa Civil, e Antonio Palocci, ministro da Economia, desfrutaram desta condição de verdadeiros comandantes do Brasil, os senhores do poder, enquanto Lula, o presidente eleito por maioria absoluta, era anunciado como uma fraude. Lula foi um homem forte até o dia em que se elegeu presidente. Imediatamente, virou uma fraude. Mas aqueles homens fortes acabaram retirados do mapa político recente, envolvidos que estavam, até a alma, com o atributo que parece melhor caracterizar a história do Estado Brasileiro e dos seus representantes: produção de escândalos e fraudes. Inclusive, já foi dito que a proclamação da república foi uma fraude.


Lula ganha o segundo mandato e, outra vez, a oposição reedita a tese de que ele é uma fraude. Fraude com direito a oito anos de representatividade. Desta vez o poder é atribuído à Dilma Roussef, senhora das decisões na Casa Civil, cargo que tinha tudo para ser uma grande fraude durante os anos de ditadura militar. O caso Dilma é algo inusitado num país machista, país de coronéis e de generais; país onde o poder sempre esteve mais associado ao vigor e ímpeto masculinos de figuras como Getúlio e JK, do que a qualquer atributo que reconheça e legitime a capacidade da mulher para influenciar de maneira decisiva os rumos dessa nação ou de qualquer organização social que não seja a família. E mesmo à Dilma Roussef são atribuídos capacidade, vigor, firmeza e frieza de análise que geralmente não coadunam com a imagem que temos e projetamos da mulher. Esta imagem que os opositores projetam de Dilma Roussef, tem tudo para ser mais uma fraude.


Lula não teve o direito que FCH e Collor — primeiros presidentes eleitos após anos de ditadura — tiveram de desfrutar da imagem de poder próprio e competência naturalmente atribuída aos presidentes. Antes de assumir, Lula já era um fantoche. Collor assumiu, mas não resistiu: saiu envolto a um espetacular cenário de fraudes e escândalos, recheado de mistério e marcado por morte que nunca foi corretamente explicada. Para alguns, a investigação foi uma fraude. Para Collor, sua cassação foi uma fraude. FHC permaneceu por oito anos e ganhou a fama de maior transformador do Estado Brasileiro. Para alguns, ele foi o presidente que definitivamente mudou a cara do Brasil. Justamente ele que antes havia ganhado o título de um dos maiores pensadores sobre o Brasil. Contudo, ele próprio pediu que esquecessem, desconsiderassem o que ele havia escrito e defendido. Ao fazer isso, ele próprio sugeria que o intelectual da CEPAL não passou de uma fraude. FHC resistiu a diversos espetáculos de escândalos e fraudes, mas não conseguiu fazer seu sucessor. Ainda por cima conseguiu ganhar a fama de Presidente que só não caiu porque foi o que mais agradou ao congresso brasileiro; congresso que, a despeito dos esforços da oposição, conseguiu passar sem ser notado, sem esboçar qualquer reação, pelo maior processo de transformação do Estado e, portanto, da realidade brasileira. Para muitos um processo fraudulento, marcado por privatizações recheadas de suspeitas de fraudes e outras irregularidades. FHC também está no centro da bem sucedida introdução de uma moeda que durante anos valeu o mesmo que o dólar. Realidade artificialmente construída e que para muitos constituía uma grande fraude. Quando houve o fim da paridade, e o fraudulento real veio a valer o que ele realmente valia, o processo ocorreu recheado de irregularidades. Será que a desvalorização do Real ocorreu sem que alguém soubesse e pudesse se articular para levar vantagem?


A eleição indireta de Tancredo Neves e os elementos que a sucederam formam o episódio que melhor caracterizam a imanência da produção de escândalos e fraudes no inconsciente coletivo brasileiro. O mecanismo é interessante. O Brasil sempre tem problemas, produz-se uma expectativa de mudança, um grande nome para a mudança e uma grande esperança na população de que ela vai acontecer. A eleição indireta é, por si só, uma fraude;imaginemos, então, na condição em que a do Tancredo ocorreu? Tancredo Neves, o grande nome da grande mudança, ganhou (?) e nunca assumiu porque sumiu do meio de nós em condições extremamente nebulosas. Para muitos, foi a morte mais fraudulenta do país. Assume José Sarney, presidente conhecido pelos planos fraudulentos, recheados de isonomias e gatilhos salariais surreais. Depois que deixa a presidência a trajetória de José Sarney será marcada por suspeita de fraudes: a de se eleger Senador pelo Amapá, sendo historicamente reconhecido como um dos donos do Maranhão e de ser eleito membro da Academia Brasileira de Letras tendo escrito apenas um livro. Nem a ABL foi poupada. O que falar do Roberto Jéferson? Da jogada do deputado Valdemar Dias? Do valerioduto? Da cueca dolarizada? Dos superbois do Renan? Da doença do deputado Jatene? Mais escândalos e fraudes.


Este sucessivo processo de construção e desconstrução da legitimidade e legalidade dos governos e trajetórias dos políticos que elegemos nos leva a crer haver uma instância de poder inabalável, cujo signatário, de face, origem e posicionamento ideológico ainda desconhecidos, tem autonomia para dirigir o rumo dessa nação. Ele, do auto da sua bicentenária existência, o faz apenas controlando a dinâmica e aparição dos escândalos e fraudes envolvendo políticos, juizes, empresários e funcionários públicos de todos escalões. Ilustre, ainda que obscura figura, que tem sua existência associada e determinada pelas principais características dos homens públicos brasileiros: arrogância, hipocrisia e narcisismo. Onipresente e intrigante figura que faz com que qualquer tentativa institucional de mudança deste país não pareça mais do que outra fraude. Não acreditamos em nada ou ninguém, estamos céticos a tudo, parecemos condenados à fraude.


Parece ser ele quem manda: o Senhor das Fraudes. Observando a dinâmica dos acontecimentos nos últimos anos, vendo a freqüência e a oportunidade em que os escândalos e fraudes aparecem, e o quanto eles interferem nas nossas vidas e nos rumos da nação, não resta dúvida de que é ele que tem o controle da situação. O Senhor das Fraudes paira absoluto por sobre os membros dos três poderes e demais instâncias do funcionalismo público nacional e da classe empresarial. Ele tem uma visão clara do que realmente move e motiva esses indivíduos, dos seus mecanismos de atuação, enfim, dos seus passos e planos. Ele que muito bem sabe da insuperável capacidade do brasileiro de não se indignar e de não reagir. São tantos os escândalos e fraudes que vieram à tona só nos últimos 16 anos e numa cadencia de aparições tão interessante que não resta mais dúvidas sobre quem detém o poder. Com sua ação furtiva e sem qualquer representatividade institucional, dado que não tem partido num país cheio de ideais e partidos partidos ao meio pelos escândalos e fraudes, o Senhor das Fraudes vai escrevendo a história do país, onde nada se sustenta, a não ser a sua tese. Também, como pensar em antítese, se alguns dos que se indignaram e publicaram suas indignações pediram mais a frente para que rasgássemos ou esquecêssemos seus livros? Como pensar em antítese, se aqueles que se indignaram e durante décadas se especializaram em decifrar o jogo sujo do poder, que criaram governos paralelos, quando entraram no poder conseguiram indignar até os mais sujos com sua especialidade para criar códigos aparentemente indecifráveis de um jogo mais duro pelo poder?


Mas escândalos e fraudes se sustentam, e têm rodízio especial. Uma hora vem um escândalo do executivo. Então, ministros e demais funcionários roubam a cena ao serem reveladas as negociatas e situações mais ridículas possíveis para levar vantagem pessoal. Depois é a hora do legislativo. Senadores, Deputados e funcionários dessas casas amontoam-se em denúncias e acusações as mais estapafúrdias possíveis. Por fim, mas apenas do rodízio, aparecem os membros do judiciário, que escondem sob as togas tudo o que há de mais atrasado e nocivo à constituição de uma sociedade justa e capaz de reagir à fraude: nepotismo, corporativismo, revanchismo etc. Vira e mexe, estes não menos distintos senhoras e senhores, doutores do direito, roubam a cena nacional com seus nomes envolvidos em maracutaias: sentenças vendidas ou negadas para pessoas envolvidas com jogos ilegais, combustíveis adulterados, especulações imobiliárias, crimes contra o tesouro e a pátria etc. E assim, responsáveis pelos seus próprios julgamentos, mas não sobre o mecanismo que os expõem, dado que para eles as escutas telefônicas foram fraudulentas, eles paralisam as pautas, congelam os processos, deslegitimam políticas públicas. Aos membros do Judiciário e do Legislativo são concedidas imunidades e condições extraordinárias que mostram-se, na verdade, passaportes e subsídios à produção de mais escândalos e fraudes.


Essa tem sido a dinâmica do jogo: os sem vergonha se articulam e o Senhor das Fraudes os expõem à mídia, que, por sua vez, expõe o que lhe é interessante, mesmo que essa exposição seja mais uma fraude. A astúcia gera a oportunidade que explica a ganância, que leva ao flagrante sem que astúcia seja sequer abalada pela vulgaridade. Abre-se, então, CPIs para apurar os casos. Para todos nós, CPIs são mais uma fraude ou fraudulento mecanismo usado por pessoas e partidos mais do que imersos em fraudes para apurar escândalos e fraudes. E o ritmo é alucinante: de repente, não mais que de repente, porém de maneira cadenciada, todos os sem-vergonha vão parar na mídia, esta também refém deste distinto Senhor. A mídia dá cobertura total e conveniente a tudo o que acontece dentro dos seus interesses, não se importando se vai lançar mão de mais uma fraude. Jornalistas correm de lá para cá atrás de um furo de reportagem sobre um tema que já virou lugar comum no país: a perspectiva de uma fraude. E se esmeram, competem entre si, para oferecer visões diferenciadas sobre o que acontece? Sim, cruzam nomes, checam fontes, leem as entrelinhas, criam as suas próprias metáforas, abusam dos jargões e ganham premio de reportagem do ano. Jornalismo que não resiste à revelação do conteúdo de uma caixa-preta. Revelação esta que, para muitos, não passou de mais uma fraude, pois foi feita por deputados e por intermédio de uma CPI.


E a população, como fica? Sob histórica e esplêndida sonolência, assistimos e lemos aos jornais atentos e ávidos para saber o que realmente está acontecendo. Situação em que cada um de nós procura aprimorar sua habilidade de especialista em fraudes. Sabemos tudo sobre política e crises, analisamos tudo com a frieza de atiradores de elite. Ironicamente, a mesma e narcisicamente admirada habilidade que temos para escalar a seleção de futebol do nosso país. Seleção cujos fracassos em copas do mundo estão sempre envoltos em clima de completa nebulosidade e acusação de manipulações. Afinal, o que aconteceu com o centroavante de 1998? Por que na seleção de 2006 jogaram os que estavam mal e os melhores ficaram de fora? Quem escolhe a seleção, a comissão técnica ou os patrocinadores? Afinal, os jogadores mais famosos barraram ou não alguns mais novos? Quanto ganham, de fato, os jogadores para jogar na seleção? E todos ganham igual? O que sabemos sobre o que acontece na CBF? Por que são necessários auxiliares técnicos de técnicos? Usamos esta mesma habilidade para escalar os nossos times do coração, cujas presidências e diretorias se elegem ou são mantidas em clima de completa desconfiança, a mesma das representações esportivas estaduais. Diretorias de times cujos números e práticas de parcerias nunca são aferidos e sempre permanecem sob suspeita de fraude. Afinal, quem ainda tem coragem de fazer investimento emocional em times que competem em competições cujos juizes estão sempre sob suspeita de fraudes?


E tudo o que acontece ao nível federal vai se repetindo pelos estados e municípios. Milhares são os deputados, prefeitos e vereadores que se elegem sob quase surreais suspeitas de fraudes. Até onde podemos acreditar na isenção de juizes de funcionários de Fóruns municipais? E nada lhes acontece, pois são tantas as instâncias para se recorrer na justiça brasileira, tantos os que podem decidir e influenciar os resultados dos processos, que não há resultado que saia sem estar sob suspeita de fraude, independente se ele mantém o pedido da defesa ou da acusação, corretamente escrito segundo os princípios, normas e regras que informam os códigos do direito nacional.


Estamos sob o controle deste Senhor, que determina o ritmo de vida de todos nós. Por outro lado, parecemos estar eternamente condenados ao envolvimento com situações obscuras, porém sempre proveitosas para poucos. Situações que ninguém jamais sabe como começam, mas sim como terminam: em fraudes. 

Marco Bauhaus
02/03 de agosto de 2007
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