Domingo, 19 Nov 2017
   
Estatuto da Rural: Projeto de uma Nova Organização versus novo Projeto de Poder PDF Imprimir E-mail

 

Percebe-se um clima festivo na divulgação do novo estatuto, mas esse grande momento não pode ser enviesado. O estatuto de uma organização é geralmente consonante com a essência cultural dela. Por isso questiona-se aqui: a estatuinte supostamente deflagrada no dia 16 será o projeto de uma nova organização ou um novo projeto de poder para uma organização? Contribuirá para a construção de projeto para uma nova organização ou um novo projeto de poder para maquiar uma velha organização? A proposta deste texto é contribuir e ele procura reunir e fazer valer o velho ditado: São as idéias que brigam, não as pessoas. Se não fizermos isso, o texto final do estatuto lembrará uma “pequena ode ao poder”.


É importante reunir diferentes idéias sobre o que seja repensar uma organização para que o processo de mudança de estatuto seja visto para além do que sugerem os destaques do Rural Semanal: “reescrevendo a história” (RS de 19/6) e “trabalho exigente de criatividade (RS de 12/6).


Fundamentalmente, reescrever a história no contexto de um projeto estatuinte deveria passar, primeiro, por uma reflexão sobre o legado proporcionado pela Reforma Universitária,Lei n° 5.540, de 28/11/68,  que instituiu, dentre outros aspectos, estruturas paralelas de poder dentro da unidades acadêmicas. Segundo por uma reflexão sobre temas (entre outros) relativos a ampliação e democratização do acesso ao ensino superior, sobre a adequação dos currículos defasados face as grandes transformações tecnológicas, políticas e sociais ocorridas no final do último século, de modo a  contribuir para o desenvolvimento econômico e social da nossa nação.


Para começar, destaquemos que no arquivo da proposta preliminar a presença da palavra “poder” supera a de qualquer outra palavra normalmente esperada em uma mudança de formato organizacional, como flexibilidade, confiabilidade, rapidez e qualidade ou eficiência e efetividade. Não se lê essas palavras.


O texto estava pesado – “lógica de estrutura...e de poder” “caráter majoritário”, “caráter minoritário”, etc. –, algo que contrasta com o caráter empreendedor, democrático e criativo que o Rural Semanal sugere. Depois, felizmente, foi mudado para propostas A e B. A apresentação, por si só, teve um caráter pesado, cerrado e formal, inibidor da fruição de sentimentos e atitudes empreendedoras, criativas e democráticas. Será que essa é a essência da nossa organização? É válido notar que as palavras inovação, criatividade e empreendedorismo não aparecem nos princípios da UFRRJ ou em qualquer outra parte do texto proposto.


Geralmente, mudanças na essência de uma organização atendem às demandas daqueles que têm interesse (stakeholder) e nela influem diretamente: acionistas; os que estão no comando; funcionários; clientes; fornecedores; a região ou local que acolhe a organização; midia etc. Na proposta preliminar ficou evidente que as ambições dos clientes, funcionários e a região não foram consideradas como prioritárias e motivadoras. A não inovação organizacional, mascarada por forte amarração de centros e etc., atende, evidentemente, à manutenção do poder vigente aos atuais administradores da organização. Além disso, fortalecendo a estrutura de poder vigente e ao Projeto Reuni, favorece o interesse do acionista, o poder público, ou melhor, dos atuais ocupantes do governo federal.


Não foi deixado claro que a atual estatuinte significava um aprimoramento organizacional que daria conta do ajustamento da UFRuralRJ aos padrões mundiais de exigência de como deve comportar-se uma organização consumidora, produtora e compartilhadora de conhecimento, como:  ter o fluxo da mudança vindo também de fora para dentro; ser orientada ao empreendedorismo e à inovação de produtos e processos; liderar e participar de sistemas nacionais, regionais e locais de inovação; ser desenhada para explorar ao máximo o efeito sinérgico dos seus principais recursos (professores, pesquisadores, técnicos, laboratórios etc.); ter transparência (accountability); ser orientada à parcerias com distintos atores sociais; ser capaz de desenvolver pessoas e produzir produtos e serviços em nível de excelência; apresentar um nível de serviço nas suas operações que reflita o aporte do que há de mais moderno, humano e sustentável em termos de tecnologia e ferramentas etc.. Definitivamente, não é isso que lê e vê nesse processo.


Está evidente que esse processo de aprimoramento organizacional está fechado.  Ele só tem duas saídas. A comunidade irá participar da escolha e da oferta de contribuições para duas propostas elaboradas anteriormente; irá escolher entre aquilo que a Comissão Organizadora Geral (COG) definiu como sendo majoritário e minoritário, algo previamente pensado por eles, representando o que se entende ser a realidade e que refletirá o que eles querem que a realidade seja. O processo não nasceu de fora da UFRRJ para dentro dela, representando a mediação da sociedade e demais atores.


E, dentro da UFRRJ, o processo vem dos arcabouços da Administração Superior para todo o resto. A constituição da inteligência que norteia a mudança do estatuto, assumida pela COG, não veio de consultas a departamentos, setores e segmentos sobre o padrão de desempenho que essa organização deveria ter e que justificaria alguma mudança nela. Por exemplo, não ficou claro se a Administração Superior recorreu a alguma consultoria externa sobre temas como arquitetura, comportamento e desempenho organizacional. Ela, com certeza, não recorreu ao Departamento de Ciências Administrativas e Contábeis (DCAC) para solicitar a mediação dos seus especialistas, o que significa um desprestígio dos profissionais do departamento e que atuam no mestrado em Estratégia e Gestão Empresarial (PPGEN).


O processo começou antes do dia 16/6 e seu verdadeiro caráter pode ser lido na entre linha do texto “foi dado um passo decisivo para que possamos, num processo democrático de discussão, e com a agilidade necessária para chegar a um resultado final ainda neste ano de 2009, elaborar o documento que fornece os fundamentos estruturantes da vida universitária”. A agilidade carrega uma intencionalidade de poder não assumida abertamente. A agenda oculta da mudança está para ser lida, e com poucas chances de ser mudada. É importante irmos para alem dos textos do Rural Semanal.


É notório que não é fácil propor e realizar mudanças numa organização, que é preciso encontrar uma dinâmica razoável para fazê-la, mas o pacote fechado que foi apresentado não representa muito das ambições da sociedade, dos clientes (alunos, empresas etc.) e da região onde a UFRRJ está inserida. O pacote está fechado e não haverá como efetivamente participar e estimular mais pessoas a essa participação.


Também é importante dizer que há muito se reescreve uma nova história para a quase centenária UFRRJ. Ela está totalmente descaracterizada e há tempos não vem sendo pensada e gerida como uma organização que pode participar decisivamente e efetivamente do projeto de uma nação que depende de inovações na agricultura e pecuária. Não há direcionamento das instancias superiores responsáveis por ensino, pesquisa e extensão para que os cursos falem entre si, que se explore ao máximo o efeito sinérgico dos seus principais recursos (professores, pesquisadores, técnicos, laboratórios etc.). Nem mesmo para que a realidade de Seropédica pudesse ser melhorada. Não existe essa intencionalidade estratégica. É importante assumir: não estão disponíveis registros que provem que a abertura de novos cursos na UFRRJ (antes e agora) considerou a sinergia dos seus recursos e a oferta de resultados objetivos a um país dependente da agropecuária.


Uma UFRural sempre foi um ativo dedicado, ou seja, ela encerrava uma coleção de recursos dedicados a produção de resultados específicos, vistos objetivamente na interferência dos seus produtos no desempenho do agricultura e pecuária brasileira. Entretanto, os recursos da antiga UFRRJ estão diluídos após um ágil e acelerado processo de abertura de novos cursos, e não há nas duas propostas (A e B) a assunção clara de que todo o potencial desses recursos será explorado de maneira estratégica. Pergunta-se: houve discussão sobre a importância de crescer, mas sem perder a força de mais de 90 anos de contribuição à pecuária e agricultura nacional? Houve seminário aberto sobre como tornar os recursos das áreas dedicadas mais fortes e sinérgicos? Há muito estamos crescendo, somos ágeis, mas não refletimos sobre como crescer sem perder identidade, sem gerar discriminação e aproveitando a diversidade.


É importante refletir se as presentes propostas irão ou não corrigir esse legado de 1968 ou se serão, de fato, uma adequação do estatuto ao Projeto Reuni. Com o pretexto de sermos ágeis, corremos o risco de sermos voltados para os próprios umbigos e definidores de um projeto de poder para uma velha organização e não um novo projeto de organização. Pelo menos uma organização mais afeita e sensível às demandas externas. O ideal seria uma organização onde o estar nela fosse definido pela experimentação de uma real e indissociável articulação entre ensino, pesquisa e extensão. Infelizmente, ainda convivemos com os ótimos isolados de cada área.


Marco Antônio Ferreira de Souza (DCAC)
Allan Cardeck Lemos (Coinfo)