Domingo, 19 Nov 2017
   
ICHS: Imagens do Humano, do Social, do Acadêmico e do Político dentro da UFRuralRJ PDF Imprimir E-mail

 

Aparentemente, o episódio do trotão dos alunos do curso de Administração em Seropédica, quando veteranos fizeram calouros exporem suas nádegas numa das passarelas da cidade, foi apenas um pequeno excesso dentro do ingênuo e divertido mundo das picardias estudantis universitárias. Até porque, às 10h da manhã, os divertidos alunos estavam apenas iniciando os trabalhos de mais um dia dedicado ao prazer, dia da chopada, que só acabaria no inicio da madrugada do outro dia. Até porque, há tempo estamos assistindo, e com bastante naturalidade, o calendário do prazer (festas, trotes e outras comemorações) massacrar o calendário do sacrifício (estudar, pesquisar e fazer extensão). Sim, pode sugerir algo comum ao mundo universitário nacional. Contudo, chopadas e festas temáticas são signos que ilustram bem uma inversão de valores acadêmicos e, no caso da UFRuralRJ, o errôneo consenso da comunidade sobre como organizar as relações sociais: pagar ingresso. Houve um tempo em que as festas eram da comunidade.


Entretanto, este episódio não é extemporâneo. Ainda que a desregrada busca pelo prazer seja lugar comum na sociedade, o episódio da passarela está enraizado em contextos muito peculiares à UFRuralRJ. Especificamente, ao conjunto de representações que a comunidade interna e de toda a Rural recebe do ICHS (Instituto de Ciências Humanas e Sociais) e dos Institutos como um todo. O que significa um Instituto de Ciências Humanas e Sociais na Universidade Rural? Qual a importância dos Institutos dentro da UFRuralRJ? Se forem debatidas, estas questões gerariam algumas surpresas para todos nós. Tenho muita segurança para afirmar que a grande maioria dessa comunidade desconhece como a universidade está estruturada (Institutos, Departamentos, Cursos) e porque é assim estruturada. Desta maneira, perde-se um interessante elemento para analisar e discutir a dinâmica dos acontecimentos dentro da UFRuralRJ, ou como passado, presente e futuro da Rural são considerados na composição das propostas políticas para gestão dos Institutos e da própria Universidade.


No que diz respeito ao IHCS, tenho certeza de que a maioria dos alunos dos cursos lá sediados não é instruída sobre esta estruturação. De fato, nunca vi nenhuma preocupação da universidade em instruir os que ali entram sobre como ela própria está estruturada, ou seja, como ocorrem os principais fluxos administrativos (de recursos, informações, decisões estratégicas etc.) e como essa estruturação afeta diversos interesses (discentes, docentes e técnicos). Também nunca vivenciei preocupação em informar quais são os direitos e deveres dos membros de todos os segmentos e como, quando e a que instâncias recorrerem quando necessário. Por exemplo, não se tem uma visão compartilhada nem debate sobre a importância da dedicação exclusiva dos docentes e do quanto estes produzem em termos de aula, pesquisa e extensão. Sem essa “informação cidadã” e sem acesso aos fatos históricos que explicam como, quando e porque Institutos, Departamentos, Cursos e Campos Experimentais “nasceram”, o que se obtém de informação para construção das identidades individuais só permite à anexação de uma pessoa a uma temporalidade: estudar na Rural e ser aluno deste ou daquele curso nos próximos 4 ou 5 anos. Reféns do agora, a maioria não conta com a perspectiva histórica (do país e da Rural) para poder analisar o futuro da UFRuralRJ presente nas propostas políticas que surgem a cada eleição para diretoria dos Institutos e reitoria da Universidade.


Perto de completar 40 anos de idade, o ICHS é um bom exemplo para se analisar a relação entre o conjunto de representações que se tem do humano, do social, do acadêmico e do político na UFRuralRJ e as perspectivas futuras para a esta universidade. Inicialmente, há que se considerar que é um Instituto não relacionado ao projeto Universidade Rural, e que não representava especificamente um curso como ocorre com IA, IZ, IF, IV ou IB. Isto quer dizer que como unidade que representa áreas do saber, o ICHS nasceu representando minorias sem tradição de produção e aplicação de conhecimento aqui dentro e completamente dissociadas do projeto Universidade Rural.  Projeto que ajudou a transformar a realidade econômica brasileira ao contribuir para a modernização da agropecuária brasileira. Objetivamente, pelo menos para os cursos de Economia e Administração, nunca houve ênfase na divulgação de registros de esforços estratégicos para vincular ensino, pesquisa e extensão desses cursos ao Projeto Universidade Rural. Em termos práticos, a minoria representada pelo ICHS nasceu completamente distante e desvinculada dos esforços, práticas e necessidades de ensino, pesquisa e extensão dos cursos tradicionais. Por exemplo, estes cursos não demandavam (nem demandam) a construção, manutenção e aperfeiçoamento de laboratórios (aparelhamento tecnológico) para produzir resultados expressivos e de qualidade. Como veremos à frente, este elemento será fundamental para a transformação do ICHS e sua relação com as categorias que formam o título desta análise.


O ICHS não é mais a minoria na Rural. Atualmente seus cinco cursos (ADM Integral e Noturno, Economia, Economia Doméstica e História) respondem por boa parte do contingente de discentes da Rural. Mas é uma comunidade que tem minorias no sentido numérico (História e Economia Doméstica) e ainda está profundamente enraizada com o ensino, tendo pouca expressão com pesquisa e extensão. Sua vinculação com a extensão se deu fortemente pelas ações do curso de Economia Doméstica. Sua vinculação com a pesquisa começou com a anexação do CPDA à Universidade em 199x, oportunidade em que a Rural incorporou ao seu quadro pesquisadores e pensadores sobre as questões agroalimentar e campesina no Brasil. Em 199x, o CPDA transfere-se fisicamente para o Centro do Rio de Janeiro, ficando seus membros (alunos de mestrado e doutorado, técnicos e docentes) distantes do dia-a-dia da UFRuralRJ e do ICHS. Apenas em 199x surge o primeiro esforço estruturado (porém isolado) para produção de pesquisa no Instituto através da criação do Programa de Pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Departamento de Ciências Administrativas e Contábeis. Em 2007 surge o mestrado em História, consolidando professores do ICHS e do IM, com potencial para ser um grande programa de pesquisa.


Entretanto, mesmo tendo crescido bastante, o ICHS continuou sua trajetória desvinculada das necessidades do Projeto Universidade Rural. Também não foi ampla e democraticamente debatido pela comunidade o equacionamento das questões referentes à produção de resultados acadêmicos expressivos e de qualidade e a relação direta destes com o aperfeiçoamento dos materiais e métodos de ensino e com a dedicação exclusiva e produção acadêmica (ensino, pesquisa e extensão) dos docentes. Perto dos outros cursos e Institutos, o ICHS ainda expõe baixos índices de qualificação e produção por parte dos docentes. Como docente e ex-aluno do Instituto, conheço bem esta realidade, pois vivencio e vivenciei como a questão acadêmica foi posta em posição inferior à questão política, e como esta se reflete sobre as representações disponíveis sobre o humano e o social. É comum ouvir dizer a expressão ICHShopping.


As conseqüências desta sujeição do acadêmico ao político podem ser recuperadas de várias maneiras, mas a melhor maneira é visualizar os signos do que seja humano, social ou relativo a poder no Instituto (ou na Rural?). O episódio do trote é ilustrativo. Os alunos consideram a sujeição de uma minoria (os calouros) ao ridículo uma coisa normal. Certamente, mostrar as nádegas às 10:00 para uma população que precisa e muito da UFRuralRJ para mudar sua realidade econômica e social não é uma boa proposta de intercambio cultural. Não, definitivamente, não. Isto é fruto deste nocivo vínculo a uma temporalidade precária: ser aluno deste ou daquele curso nos próximos 4 ou 5 anos. Infelizmente, ação de reféns do agora, de quem não conta com a perspectiva histórica para produzir alguma coisa mais substantiva.


Os trotes da ADM e da Economia são um excelente exemplo dessa realidade. Há tempos eles são embalados por canções dirigindo ofensas e impropérios ao outro curso. Em 2006, os dois grupos de trote ficaram de um lado e do outro do pátio do ICHS trocando ofensas. Alunos “veteranos” faziam com que os calouros reproduzissem as canções. Embate que mais lembrava um estádio de futebol em briga do que uma Universidade Federal. Não estavam nem aí para as aulas que eram ministradas. Alguns alunos tinham às mãos latas de cerveja. O espetáculo se impunha agressivamente à lógica que deveria informar a existência daquela estrutura paga pelo dinheiro público: ensino, pesquisa e extensão. Perguntei a um aluno do curso de ADM o porquê daquilo. Eufórico e orgulhoso, ele me respondeu: Professor, temos que mostrar para esses babacas da Economia quem manda aqui no ICHS! Atualmente os alunos desses cursos brigam para mostrar quem tem a melhor chopada da Rural. Se esta perspectiva prevalecer, coitada da comunidade da História e da Economia Doméstica, ainda minoria numérica.


Onde está centrada esta rivalidade? Está centrada em méritos não acadêmicos. É oriunda da sujeição da questão acadêmica à questão política; está relacionada à falta de diálogo e ao instrumentalismo de toda proposta de crescimento dissociada da substância do sustentável e da produção de saber com qualidade. Fundamentalmente, está associada ao esvaziamento do Projeto Universidade Rural. O que justificava a arrogância daquele aluno? O fato de até pouco tempo o curso de Administração ter o maior número de alunos da Rural. Alunos dos cursos integral e noturno, e em Quatis, Três Rios e Nova Iguaçu. Apenas isso. Muito pouco por sinal. “O Curso de Administração cresceu mais que a Rural”, falou-me certa vez um colega de departamento. Outro colega disse: “o nome “Rural” atrapalha o nosso curso de ADM, acho que tinha que mudar esse nome!”.


A realidade é que alunos do curso de Economia e Administração sabem muito pouco sobre a história da Rural e do Projeto Universidade Rural e, principalmente, sobre quanto e o que produzem seus professores. São dois cursos que ainda vivem de ótimos isolados em termos de pesquisa e extensão, onde seus professores esbarram em diferenças políticas historicamente construídas para tentar salvar o mestrado, que hoje congrega professores dos dois departamentos. Estes dois cursos foram os que se expandiram na Rural, cursos fáceis de serem replicados dado que não demandam grandes investimentos em laboratórios, material de consumo, segurança, técnicos administrativos capacitados e controle de qualidade do que é produzido. E também porque a maioria dos seus professores não estava totalmente envolvida com tarefas de pesquisa e extensão, o que inviabilizaria a freqüência de viagens para Quatis e Três Rios. Ironicamente, estes alunos estão diretamente associados ao Instituto que, até a criação do IM, mais ganhou representatividade política dentro da Rural, mas ainda não param para refletir sobre o porquê de tanto alvoroço político dentro do Instituto. Certamente, não é para valorizar o mérito acadêmico.


Ainda distante do Projeto Universidade Rural, que precisa urgentemente ser repensado para dar conta de questões como biotecnologia, bioenergia, segurança alimentar e desenvolvimento sustentável, o ICHS é reconhecido como o Instituto que decide as eleições na Rural. Infelizmente, os signos políticos ainda são maiores e mais disponíveis que os signos acadêmicos, justamente os que melhor expressariam símbolos humanos e sociais. Infelizmente, é a imagem e o discurso do poder que estão disponíveis para que os alunos destes cursos formem sua identidade, sua noção de pertencimento a uma desfigurada UFRuralRJ. Infelizmente, apesar dos esforços da atual diretoria para promoção de atividades artísticas e culturais, para participação aberta e eqüitativa de todos os departamentos, o atraso ainda persiste. Ainda se briga por espaço físico, por salas e materiais que são de propriedade deste ou daquele departamento e não do Instituto ou da Rural. Em tempo de Ensino à Distância e Universidade Aberta, espaços e recursos físicos ainda não são inteligentemente compartilhados, prevalecem atitude e comportamento nada humanos ou sociais, construção de feudos e latifúndios. O CPDA continua distante da comunidade, nunca se fez uma divulgação mais efetiva dos resultados deste programa. Ainda estamos distantes de uma semana acadêmica e de pesquisa conjunta dos cursos de História, Economia, Economia Doméstica e Administração.


Enquanto não mudarmos o conjunto de representações do ICHS, o trote continuará parecendo apenas um pequeno excesso dentro do ingênuo e divertido mundo das picardias estudantis universitárias, e não um exemplo fiel das práticas de reprodução de poder neste Instituto. Enquanto não repensarmos a estruturação da Universidade Rural, os Institutos com muitos cursos continuarão sendo veículos de interesses políticos e o pesadelo para os interesses acadêmicos dos cursos que são minoria. Enquanto não estabelecermos uma cultura de valorização do mérito acadêmico na Rural, grupos de baixo desempenho acadêmico continuarão tentando submeter o fazer acadêmico humano e social ao interesse político.

Marco Souza (06-08-2007)