Sábado, 18 Nov 2017
   
Cidadão Irrequieto PDF Imprimir E-mail

 

Tem como não ser um cidadão irrequieto, sendo um brasileiro, morador de Seropédica e apaixonado pela UFRuralRJ? Não, não tem. Pois sempre esperamos muito do nosso país, dessa cidade e de uma Universidade pública desse porte; estamos sempre na expectativa de que vai ocorrer uma grande virada em suas histórias, mas acabamos por sofrer com suas contradições, incoerências e opções, algumas lastimáveis.

Nosso país se consolida como o grande fornecedor mundial de commodites, um posicionamento complicado no complexo jogo político e econômico travado entre as nações; cresce, mas não consegue vencer sua dramática desigualdade social, realidade muito bem aproveitada por governadores, prefeitos, senadores, deputados e vereadores que a cada dois anos se locupletam desse quadro de horror para se reeleger e perpetuar feudos políticos. O país é incompetente para pensar, fazer e integrar seu campo e suas cidades, levando-nos a vivenciar diariamente os horrores da violência (em todas as suas manifestações) e da deterioração da qualidade de vida; tem o Estado e suas instituições cada vez mais a serviço de quem governa, formalmente e informalmente, como as milícias e outras manifestações de poder paralelo.

Seropédica, infelizmente, é uma miniatura do Brasil que envergonha, um pequeno laboratório de aplicação de todas as atrocidades feitas pelos políticos Brasil a fora. Um dia foi o município do futuro, graças as condições logísticas e a presença da UFRuralRJ, fato que levou muitos a luta pela sua emancipação. Acreditava-se que esses fatores, somados a vontade política, ajudariam a trazer para cá atividades econômicas capazes de elevar os padrões socioeconômicos e ambientais. Atualmente Seropédica não passa do município que fornece areia para a construção civil, é o paraíso dos areais, e em breve receberá das outras cidades o seu lixo. Atividades econômicas estas que degradam o meio-ambiente e que não deixam espaço para que seus cidadãos se orgulhem da cidade e que com elas possam pensar em um futuro melhor. Ao dizer sim para o Aterro, Seropédica deu mais uma demonstração da capacidade que a ação oportunista e mesquinha da classe política tem para humilhar, subestimar e achincalhar os sentimentos e aspirações dos cidadãos.

 


 

Da UFRuralRJ sempre se espera muito, pois é notória a relação positiva entre conhecimento e desenvolvimento econômico e social. Em muitos países vemos exemplos de cidades que exploram positivamente os benefícios de participar da economia do conhecimento, graças a notoriedade e empreendedorismo de suas universidades. Da UFRuralRJ se espera muito pois ela está diretamente e objetivamente associada a transformação que a agropecuária brasileira experimentou no século passado, e que agora sustenta o país no cenário mundial. Foi uma organização empreendedora.

A centenária Universidade experimentou nos últimos três anos um fantástico processo de crescimento e ainda não está muito claro como será feita a gestão estratégica dos seus recursos históricos e dos novos recursos adquiridos. Acredito que colocar tudo num mesmo bolo representará a diluição das capacitações em agropecuária. A UFRuralRJ cresceu, inchou, enfim, experimentou um aumento da sua estrutura capaz de tornar seu planejamento e gestão cada vez mais complicados e complexos. Isso tem potencial para fazer com que sua intervenção na realidade imediata do país, da região e da cidade de Seropédica se torne cada vez mais difícil de ser planejada, medida e operacionalizada. De fato, não se pode negar o benefício gerado a toda sociedade brasileira por se ter mais profissionais graduados em todos os níveis. Também não se pode negar o impacto da universidade em Seropédica, que atualmente tem sua economia fortemente dependente dos alugueis pagos por alunos e funcionários e das compras para subsistência feitas por estes regularmente.

Entretanto, é importante lembrar que um dos riscos associados ao crescimento de uma organização é o seu progressivo afastamento da realidade. Um sintoma desse problema na UFRuralRJ pode ser visto na sua participação no movimento contra a implantação do Aterro Sanitário em Seropédica. A Universidade chegou atrasada ao movimento, e dependeu das iniciativas e ações das Associações e Sindicatos de funcionários. Enquanto organização manifestou-se por meio de moções de seus Conselhos Superiores, algo tão simbólico quanto ineficaz. Esse episódio mostrou a dificuldade da organização para dar uma resposta estruturada ao problema/desafio. Verifica-se que seus recursos de ensino, pesquisa e extensão não estavam orientados para o enfrentamento dessa realidade. Ainda não vimos quantas e como as linhas e projetos de pesquisa da Universidade estão orientados e integrados para o enfrentamento dos problemas/desafios relativos ao consumo, produção e tratamento do lixo, por exemplo. Ainda que para o próprio lixo produzido por ela.