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E possível reinventar-se aos 43 anos?

Este é o desafio que se apresenta à área de Ciências Sociais Aplicadas da UFRRJ.

A reinvenção é uma perspectiva afeita às áreas que estudam a dinâmica das organizações e das nações. Organizações fazem reestruturações, países fazem o emparelhamento com os modelos mais bem sucedidos (catch up). São positivos os exemplos de organizações e países que se reinventaram, mantendo muito das características que lhes davam a identidade inicial.

Desde o dia 30 de Julho de 2013, Economia Doméstica, Economia, Hotelaria, Ciências Contábeis, Administração e Administração Pública ─ representadas por seus Cursos (de graduação e pós-graduação) e pelos Departamentos ─, fazem parte do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA), o mais novo da UFRRJ. Até essa data essas áreas faziam parte do Instituto de Ciências Humana e Sociais (ICHS), este que segue, aos 43 anos de idade, com as grandes áreas Ciências Humanas e Letras, Linguística e Belas Artes. O ICSA é resultado de um projeto administrativo defendido e construído internamente, democraticamente, somando as forças de todas as áreas do ICHS e respeitado pela Administração Superior e demais Institutos da UFRRJ.

Transformar-se em Escola de Ciências Sociais Aplicadas será um dos capítulos da reinvenção. Não é meramente um filme que nasce ou um velho filme que muda de nome. É uma história significativa que ganha novo enredo e novos personagens, e que começa a ser rodada e contada. Significativa por várias razões, principalmente pelas contribuições que deu à história da UFRRJ e também pelas controvérsias geradas.

História de inovação e exposição

O desafio da reinvenção será complexo e se apresenta em um momento muito interessante: “a atual feição da UFRRJ é marcada por iniciativas historicamente tomadas pela área de Ciências Sociais Aplicadas, durante os anos em que constituiu o ICHS”. Podemos destacar: primeiro curso noturno, primeira Empresa Junior, interiorização de turmas de graduação, pós-graduações aplicadas (Em Agronegócio e Gestão de Serviços de Alimentação), serviço civil voluntário, Mestrado Profissional (Gestão e Estratégia em Negócios), Ensino a Distância (EaD) e adesão ao Reuni.

Atualmente vemos na UFRRJ o nascimento de novos cursos de mestrado profissionais e a pressão por mais cursos funcionando no horário noturno e para a oferta de mais cursos de pós-graduação efetivamente aplicados. Temos várias empresas juniores emergindo. Em todo o Brasil, vemos o crescimento do EaD e a UFRRJ é parte significativa dessa realidade, pois é uma das consorciadas do CEDERJ.

Durante 43 anos, porem, milhares de profissionais foram formados em Economia Doméstica, Contabilidade, Economia e em Administração com ênfase em Pública e em Empresas. Tenho a alegria de ser um deles. Atualmente, muitos desempenham papel de relevância em organizações públicas e privadas ou em seus próprios negócios; estão em atividade gerenciais ou em pesquisa e lecionação. As repercussões internas também foram expressivas: para muitos técnicos-administrativos da UFRRJ − e também para docentes de outras áreas −, as iniciativas da área de Ciências Sociais Aplicadas representaram oportunidades que marcaram definitivamente as suas vidas. Uma vez estudantes dos cursos de graduação e de pós-graduação, essas pessoas abriram perspectivas que os levaram a novos empregos fora da UFRRJ ou a ascensão funcional dentro da própria Universidade, chegando a cargos de nível superior ou à docência.

Também é importante ressaltar que a área deve ser reconhecida pela ascensão e inscrição definitiva de alguns de seus membros na história política e administrativa da UFRRJ. Os professores José Antônio Souza Veiga e Eduardo Mendes Callado, ambos da área de Economia, chegaram ao patamar mais elevado da carreira universitária, ocupando os cargos mais representativos da administração superior, Reitoria e Vice-reitoria.

Ímpeto para crescer e orientação para manter relacionamento mais próximo com a realidade imediata são características muito apreciadas e solicitadas pelas novas gerações de alunos e tem muito a ver com a natureza das Ciências Sociais Aplicadas. São expressivos os resultados em extensão produzidos pela Economia Doméstica durante sua história. Outro excelente exemplo vem da Hotelaria. Como pensar nessa área de conhecimento sem sua imediata aplicação num hotel que funcione à semelhança dos que vemos no mercado? Um hotel-escola é um laboratório funcionando diariamente para formar seus alunos e produzir conhecimentos. O hotel da UFRRJ ainda não está pronto, mas os profissionais da Hotelaria já deixaram suas marcas: criaram um MBA em Gestão Hoteleira, promovem muitos seminários e visitas técnicas. O mesmo pode ser observado na criação do Mestrado em Desenvolvimento Territorial e Políticas Públicas. Todas as áreas de conhecimento do ICSA tem essa natureza. Não falo apenas de aspectos ideológicos. Está na identidade; está na fisiologia do movimento que aproxima a área da realidade que ela procura conhecer, entender e contribuir para o aperfeiçoamento.

Um presente desafiador

As consequências positivas e negativas de toda transformação que a UFRRJ experimentou nos últimos 23 anos, principalmente as mais recentes, apresentam-se igualmente para as áreas Ciências Humanas e Ciências Sociais Aplicadas. Destacamos que a oferta de infraestrutura e de recursos tecnológicos e humanos não acompanhou os passos dessa transformação. Como resultado, não temos técnicos-administrativos, professores, salas de professores (e demais recursos críticos) suficientes para produção de ensino, pesquisa e extensão que dê conta de todo potencial que está latente.  Em alguns casos, esse potencial corre o risco de ser açodado pelo desânimo que emerge diante a lentidão dos acontecimentos aqui dentro. Não deixar isso acontecer é outra grande desafio.

Temos muitos problemas, é sabido. ICSA e ICHS estão expostos às consequências de uma inovação organizacional e de problemas com obras que lhes subtraíram a ingerência sobre dimensões essenciais da experiência de academia: o acolhimentoa permanência e a produção. Atualmente esses Institutos têm muitas dificuldades para acolher discentes, funcionários e visitantes e para oferecer condições ideais para permanênciaprodução. Eles não têm salas de aula nem dependências administrativas que lhes sirvam com qualidade. Como resultado, discentes, técnicos-administrativos e docentes têm suas experiência de academia fortemente prejudicadas.

A criação do PAT e a colocação da uma Pró-Reitoria como responsável é uma inovação que influencia bastante a nossa realidade. Uma Pró-Reitoria é uma instância de inteligência, estratégia, normatização e fiscalização, penso. Dar a ela a responsabilidade pela gestão de salas de aula e laboratórios, tornando-a gestora de capacidade produtiva, inverteu a responsabilidade historicamente atribuída aos Institutos. Como resultado, o ICHS e o ICSA não têm mais salas de aula; tornaram-se clientes da PROGRAD e de outros Institutos, dependem do nível de serviço do PAT e de outros Institutos para que alunos e docentes processem sua experiência acadêmica.

Problemas na licitação de obras fizeram com que os Institutos ficassem sem os novos prédios pensados para dar conta da expansão provocada pela Reuni. Novas propostas de prédios foram enviadas à Administração Superior no primeiro semestre de 2013, e esta se comprometeu a tornar realidade. Tanto o ICHS quanto o ICSA estarão presentes na luta por essa que será uma das maiores conquistas recentes da UFRRJ. Enquanto isso, eles continuam coabitando as velhas dependências que avizinham o IE e aprendendo a construir limites simbólicos que lhes deem identidade e consistência.

No conjunto, os problemas com as obras e esta inovação fazem com que alunos e docentes desloquem-se diariamente pelo Campus Seropédica, percam sua referência de lugar e tenham condições essenciais do sentimento de pertença e identidade afetadas. E tudo se acirra pelo fato da UFRRJ ainda não dispor de um sistema de transporte interno que ofereça um nível de serviço adequado.

É importante refletir sobre o retorno, aos Institutos, da responsabilidade por sua capacidade produtiva. Principalmente, para Institutos que geram a quantidade de turmas e que tem a quantidade de docentes e alunos apresentados pelo ICSA e o ICHS. Ter apenas cinco salas de aula é algo difícil de ser entendido, principalmente no atual estágio de excelência de serviços que cobramos, enquanto cidadãos, fora da UFRRJ. São reflexões, mas entendo que a crítica e a autocritica desempenham o mesmo papel no aperfeiçoamento, como a gratidão, a orientação e o aconselhamento. Somos gratos ao ICHS, à Administração Superior e aos outros Institutos, e estamos abertos aos conselhos e orientações.

Detalhe dos desafios da reinvenção

Os anos mostraram que a natureza de “Ciências Sociais Aplicadas” demorou a ser devidamente entendida pela tradicional e bastante referenciada UFRRJ. As iniciativas tinham sim seus problemas de implantação e condução, mas foram excessivamente criticadas, sem que tivessem sido devidamente discutidas e sem que tivessem sido criteriosamente observadas em relação aos benefícios que trariam e às novas realidades que ensejavam. Como consequência, demoraram a ter a devida atenção por parte de toda comunidade.

Muito foi aprendido e muito há para ser aprendido. Penso que reside em nossas próprias ambiguidades boas dicas para começar a produzir o nosso futuro. Por exemplo, crescemos e nos apequenamos na mesma proporção. É simples: “se tivemos grandes iniciativas, não soubemos como fazê-las sustentáveis e defensáveis em todos os seus momentos. Tentamos ser reconhecidos num grande centro de conhecimento apenas pelo pragmatismo, prescindindo do mérito acadêmico, do mérito que explica a vida e essência de uma Universidade. Criamos uma estrutura que não assentou nem soube aproveitar os seus melhores recursos: excelentes professores foram embora, não encontraram aqui as condições para desenvolver um bom trabalho”.

Uma nova realidade foi criada com o novo Regimento e o novo Estatuto. Curso (e Coordenação) e Departamento são agora instâncias distintas. A relação entre Instituto, Curso e Departamento mudou: “os cursos tornaram-se clientes dos Departamentos e do Instituto. Aos Departamentos cabe pensar e produzir os melhores produtos de ensino, pesquisa e extensão e oferta-los aos cursos e a toda comunidade; ao Instituto cabe prover a infraestrutura física e de serviços que viabilize essa realidade”. É uma grande oportunidade que se insinua para os Departamentos, que precisam ser entendidos, pensados e gerenciados como loci de inteligência e produção em uma importante área do conhecimento e não como imagem de um curso. Uma área de conhecimento é sempre maior que um curso, e este é uma parte importante dela.

As Universidades Federais são cada vez mais conhecidas pela estatura das áreas que possuem, pelos diversos produtos que elas oferecem, não apenas por seus cursos. Por exemplo, se a UFRRJ será ou não uma referência na área de Administração aqui no Brasil, boa parte da responsabilidade residirá sobre o Departamento de Ciências Administrativas e Contábeis (DCAC), do qual faço parte. Os produtos de ensino, pesquisa e extensão que vamos oferecer à sociedade mostrará nosso comprometimento com essa realidade transformada e transformadora e refletirão sobre os cursos que demandam nossos produtos.

Entendo que estaremos no caminho certo para virar uma Escola, se conseguirmos produzir ensino, extensão e pesquisa consistentes e influentes e se mantivermos o ímpeto e orientação que nos identificam. Uma Escola será sempre maior que um Instituto. Instituto é uma unidade administrativa, uma instância provedora de soluções a serviço de uma Escola e de seus membros. Uma Escola é um ambiente de experiências e proposições nobres e relevantes ao desenvolvimento humano e social. Os primeiros passos foram dados, acredito. Estamos na conjuntura ideal para virar a Escola de Ciências Sociais Aplicadas da UFRRJ. Esse é o cerne da nossa reinvenção.