Sábado, 18 Nov 2017
   
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E você, como está em relação ao futuro?

Desde que anunciaram que o Brasil sediaria uma Copa do Mundo e uma Olimpíada, e os custos e transformações associados a esses eventos, percebo no Rio de Janeiro um clima social diferenciado, marcado por uma contagiante, mas para mim não insuspeita, onda de euforia e otimismo.

Na cidade do Rio de Janeiro, independente dela ser uma cidade com enormes e complexos problemas sociais, também de transportes e habitacionais, experimenta-se um deslumbramento há muito não vivido e que respalda um ambicioso, e questionável, processo de venda de uma imagem de futuro que, entre outros feitos, simplesmente a transforma na Nova Barcelona. Uma alusão ao fato ao que aconteceu na cidade espanhola, que sediou as olimpíadas, em 1992.

Progressivamente, por meio de campanhas publicitárias e coberturas jornalísticas, convidam-nos a uma viagem até um futuro algo bem distante da realidade que a grande maioria da população carioca de fato experimenta. Realidade na qual recorrentemente tropeçamos nas adversidades oriundas do abandono da pauta histórica de prioridades que efetivamente melhorariam a vida da maioria, como investimento em saúde, transporte ferroviário e a distribuição mais equitativa de atividades econômicas pelos diferentes bairros, desonerando um pouco a vida daqueles que precisam deslocar-se muito para ter acesso a trabalho, saúde e lazer.

Uma complexa produção e venda de uma imagem de futuro mexe com o imaginário e autoestima da população. Como sempre é feito, influencia-se a maneira como a realidade é percebida, ao invés de nela intervir-se objetivamente para melhorar aquilo de que diariamente necessitam os que na cidade habitam e pagam seus impostos. Sim, fazem-se mudanças, como as observadas no sistema ônibus, BRS e BRT, mas o sistema ferroviário, por exemplo, que atende a parte mais exposta e prejudicada da cidade do Rio, e das cidades da periferia, fica relegado a um plano inferior ou ao plano de apenas representar negativamente o seu usuário, este como sendo o de baixo poder aquisitivo.

Durante o verão, é generoso na mídia televisiva carioca o volume de imagens de turistas desembarcando no porto do Rio de Janeiro. Registrar a alegria desses turistas e inundar-nos com essas imagens é uma prática comum. Tanto sorriso, tanta alegria, é, obviamente, associada aos investimentos feitos na cidade com vistas à preparação para a copa do mundo e para os jogos olímpicos, ou, como bem gostam os políticos que comandam esse processo, na transformação do Rio em Nova Barcelona.

Fundamentalmente, é preciso produzir uma justificação para o derrame de bilhões de reais em melhorias e transformações em partes específicas da paisagem da cidade, adaptando-a para os meros dias em que os eventos ocorrerão e para o desfrute dos turistas. Percebo que essa onda artificial de euforia e otimismo, ao invés de embalar todos nós conforme passa, promove uma interessante divisão social, fazendo surgir diferentes tipos sociais. A priori identifico, a partir da análise dos discursos e da cobertura dos periódicos, os seguintes tipos: “otimistas dolosos", “otimistas culposos", "realistas pragmáticos", "realistas deslumbrados", "indiferentes culposos", "emissários da infelicidade" e “totalmente ausentes”.

Os otimistas dolosos são nossos velhos conhecidos, aqueles que sabem que esta é uma grande oportunidade para levar muita vantagem, locupletando-se do dinheiro público, independente dos custos e externalidades negativas associadas aos investimentos feitos em coisas bem distantes das reais prioridades da sociedade. Encontram-se aí os políticos da situação, seus assessores, os amigos empresários (que não investem dinheiro algum do próprio bolso), enfim, todos aqueles sempre beneficiados pelo superfaturamento, pela criação de tantos aditivos quantos forem necessários ao orçamento inicial da obra. São aqueles que sabem que o futuro não será tão bom assim, pois a mudança é uma ameaça às suas pretensões, e porque sabem que toda imagem, principalmente uma falsa, empobrece a compreensão da realidade. Eles sabem: o futuro, enquanto não vivido, é apenas uma imagem que pode ser convenientemente, e caramente, vendida. Sabem que é apenas uma ideia de como poderia ser a vida. Eles logicamente sabem, e muito dolo lhes cabe por assim ser, que não faremos, em quatro ou seis anos, os avanços sociais e econômicos que não fizemos em décadas; sabem que não temos as competências necessárias, que prefeituras e governos estaduais não dispõem de quadros para engendrar e controlar essa transformação.

O otimista culposo é aquele que, tendo consciência do suspeito projeto de futuro e da impossibilidade de estar na crista da onda, como estão os “dolosos”, organiza-se para aproveitar os desdobramentos associados a tanta transformação na paisagem específica da cidade. Como pequeno ou médio empresário, procura ancorar seu negócio em posições terciarias ou quaternárias nas grandes obras ou na privatização escancarada da administração pública, mas com a crítica diferença de que eles, sim, investem do próprio bolso, imobilizam o próprio capital. Sua adesão à onda transformadora dá-se por meio de associação a um político da base de apoio, garantindo, desta maneira, um espaço na extensa agenda de negociações que se desenvolve no processo de tocar em frente os projetos “olímpico e copa do mundo”. Mobilizam toda família, formam uma extensa rede de favores, lotam os grandes eventos, formando uma grande e vistosa claque.

Os realistas pragmáticos são aqueles que enxergam, em tanta movimentação no cenário econômico, cultural e social, a oportunidade para empreender um promissor projeto emprego ou de carreira, ou de fazer um investimento em uma franquia - quem sabe?. Eles se esforçam para se capacitar ou especializar em alguma área em ascensão, estão em constante movimentação e monitoração do ambiente, não se importando com qualquer suspeição em relação ao projeto de futuro. Participam de todas as feiras possíveis, de carreiras e de negócios, e tem sua vida pautada por essas expectativas, descolando-se contundentemente da rotina de sua rede familiar e social. Posicionam-se com muito otimismo, pois, ainda que a onda não se mostre tão promissora quanto parece, estarão mais competitivos que a maioria. No íntimo, acreditam-se mais empreendedores que a maioria, pois conseguem enxergar coisas que muitos outros não veem.

Os realistas deslumbrados, ou ingênuos úteis, são aqueles que, parafraseando o slogan de uma conhecida marca, “amam muito tudo isso”. Como ocorre na mensagem da tal marca, amam todo universo ambíguo e pouco objetivo que se nos apresenta nessas ocasiões. Amam tudo o que envolve a menor possibilidade de transformação da realidade. Mas não pode ser qualquer possibilidade. Tem que ser aquela que envolve a criação de novos e intermináveis momentos que, supostamente, nunca os deixarão cair numa rotina. Adoram as falas empolgadas das peças publicitárias governamentais e das marcas que aproveitam para aparecer, e a divulgação programada, e em cascata, de eventos e amenidades que vão mexendo com nossas expectativas. Eventos estes nos quais não necessariamente estarão presentes. O foco está no culto, na elaboração e reelaboração da espera dos jogos e eventos, na prática de fazer e acompanhar contagens regressivas pela TV e em monumentos espalhados pela parte rica da cidade. Se apropriam do discurso das marcas que embalam a euforia, e repetem com contundência as frases feitas mais marcantes.

O indiferente culposo faz questão de comunicar que não está nem aí para o que está acontecendo em torno dessa onda que movimenta a vida de todos. Como se nada o abalasse, ele não patrocina o discurso oportunista dos que são a favor da onda transformadora, tampouco respalda a retórica elaborada dos que se opõem. Muito embora saiba da longa e sinuosa distância existente entre um sonho e uma realidade e que a frequente divulgação de escândalos não vem de fatos infundados, onde reside sua responsabilidade. Ele pouco se envolve com o frenesi, relaxando, porem, vez ou outra, para os frequentes convites para comemorações que, em seu transcorrer, acabam por fortalecer a imagem de futuro à venda, já que o assunto acaba sendo as boas novas que o futuro reserva.

Os totalmente ausentes são aqueles que, definitivamente, estão alheios à realidade, dadas as precárias condições econômicas e sociais em que se encontram. Desinformados, geralmente são os mais afetados pelas transformações, pois o pouco que tem, ao ser amealhado, pouco custará ao que desse pouco precisar para mais para si produzir. Vivem o presente possível, tendo muito pouco a resgatar do passado e nada a explorar no futuro, o que torna sem efeito ser este promessa falsa ou não.

O emissário da infelicidade é aquele que se manifesta contrário a tudo isso, que é crítico e temerário de toda essa euforia em relação a essa imagem de futuro à venda. É aquele que sabe que políticos, seus asseclas e amigos, aproveitarão ao máximo o oba-oba em que foi transformada uma real oportunidade de mudança da nossa realidade. Ele sabe que a pauta histórica de prioridades para melhorar a vida dos habitantes da cidade e estado do Rio de Janeiro será massacrada ou posta de lado uma vez mais; sabe também que uma transformação efetiva da dura realidade em que vive a maior parte da população demanda compromissos e envolvimentos com prazos mais longos que o de uma eleição ou reeleição. Ele sempre manifesta sua posição em um tom de voz que afeta a alegria dos contagiados pela onda, como se responsável fosse pelo prenúncio de agruras que certamente abaterão o futuro que nunca se materializará. Por vezes envolvem-se em movimentos para defender os totalmente ausentes.

Marco Souza

29/08/11