Sábado, 18 Nov 2017
   
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Por empadas com mais azeitonas

Após o anúncio de que um técnico-administrativo comporia, na condição de pró-reitor de finanças, uma das chapas concorrentes à administração superior da UFRRJ, emergiu um debate algo insustentável e que tem a ele associado vários equívocos de avaliação e análise sobre o tema gestão e o mundo das organizações. O anúncio materializou-se, a chapa foi lançada. Os equívocos continuarão, mas vale a pena pensar sobre eles, pois, como veremos ao final do texto, eles ameaçam as azeitonas que tornam saborosas as empadas, e gerir essa organização é ter a chance de dar a ela ou dela tirar, enquanto empada, preciosas azeitonas.

Existem aqueles que acreditam que apenas docentes reúnem condições para assumir função protagonista na gestão universitária. Muitos, entretanto, não sabem discriminar de maneira consistente quais são essas condições que diferem os docentes dos técnicos-administrativos e o quê as legitimam dentro do interessante mundo que liga processos, estrutura, recursos, capacitações, tomada de decisão, liderança, cultura organizacional, estratégia e planejamento, enfim, o mundo da gestão.

É sabido que, em geral, as pessoas sabem muito pouco da relação entre um modelo de gestão e o desempenho de uma organização. Em uma universidade federal esta tarefa não é muito fácil mesmo, devido à sua inerente estrutura, cheia de setores, coordenações, departamentos e institutos, e onde as áreas de saber tem muita liberdade para determinarem a identidade que desejam ou como querem que sejam vistas pelo mundo externo. Por esta razão, ainda há grande possibilidade de confundir-se o que é, de fato, um bom gestor com o que é um ocupante de um cargo ilustre ou o ilustre ocupante de um cargo.

É importante pontuar que o simples desconhecimento da relação entre modelo de gestão, estrutura organizacional, recursos a serem gerenciados e os resultados organizacionais, já torna insustentável esse debate pró-docentes. Afinal, quais são os recursos críticos que compõem cada campo do plano da tomada de decisão estratégica dessa organização? Raramente tem-se abordado esses temas por aqui, fazendo com que a "organização UFRRJ" seja pouco conhecida ou estudada. Temerariamente esse desconhecimento marca nossa relação com o que representa para nós a "universidade UFRRJ" e seus temas-chave, apesar de toda influencia que o rumo que ela segue tem sobre a vida profissional e acadêmica de muitos e sobre os destinos e aspirações da região do seu entorno.

O que daria um pouco de respaldo a esse discurso contrário à participação dos técnicos-administrativos nas decisões estratégicas é o fato de haver, por exemplo, funções com alto grau de especialização no seu desenvolvimento, como às relativas à pós-graduação. Fato que cria certa reserva de mercado para docentes, já que eles, supostamente, estão mais capacitados para tomar decisões nesse campo, e tem muito mais conhecimento dos recursos-críticos para fazer a diferença em pesquisa. E não pode ser qualquer um, dizem muitos daqueles que fazem pesquisas. O que leva a supor que só assumiriam essa condição quem tivesse produção sólida, consistente, promovedora de transformações, preferencialmente as inovadoras. Infelizmente, mostra a história local que não é bem assim, pois que este é também um cargo político e que entra na miserável contagem dos votos que o candidato ao cargo de pró-reitor de pós-graduação pode atrair para a chapa que o abriga. Esta eleição atual pode sinalizar alguma coisa sobre isso, basta que sejam eleitos marcadores sérios de avaliação e olhar a diferença entre os que postulam a vaga. Novamente, pergunta-se: todas as funções do primeiro escalão são extremamente especializadas?

Ainda nesta direção, vale mencionar: quando foi que o universo eleitor dessa universidade colocou em primeiro plano, na sua escolha, uma inexorável relação entre as propostas do recurso que gere (o gestor) e os demais recursos a serem gerenciados? Sim, marcadores sérios e inquestionáveis sobre como uma organização deve ser conduzida; parâmetros evidentes das apostas estratégicas que seriam feitas para promover transformação organizacional e conduzir a UFRRJ a um projeto de futuro consistente; marcadores claros e factíveis do que vai ser feito em cada área crítica da produção universitária – ensino, pesquisa e extensão. Quando foi cobrado isso dos candidatos?

Bem, apesar de ser um grupo social marcado por um significativo nível de estudo (e especialização), também mostra a história local que amizades, favores, afetos, desafetos, alguma ideologia, clientelismos etc. acabam por definir em quem votar na UFRRJ. Pouca atenção dá-se às plataformas de idéias e intenções apresentadas, e nunca, repete-se, nunca cobrou-se a apresentação de modelos de gestão! Modelos de gestão, aqueles preciosos esquemáticos onde as chapas mostrariam como gerenciarão os recursos-críticos dessa organização para torná-la cada vez melhor. Nunca elegeu-se marcadores sérios para avaliar as propostas e se elas tinham potencial ou não para levar à transformação organizacional desejada. Sem eles, sem saber o que medir ou analisar, quando chega nova eleição fica-se preso àquelas ambiguidades tradicionais: “mudança já!”, “renovar”, “racionalizar a gestão”, etc. Este é apenas mais um dos vários equívocos de avaliação e análise que comete-se sobre gestão e o mundo das organizações aqui na UFRRJ.

Outros equívocos são fáceis de identificar no falacioso pensamento de que apenas os docentes reúnem condições para serem protagonistas na gestão. Por exemplo, pode-se cair com facilidade no lugar comum de defender que “Administração é para Administrador”, coisa recorrentemente dita por alguns na UFRRJ. É preciso ter muito cuidado para defender isso, pois a realidade vivenciada por muitas organizações, públicas e empresariais, é que “administrar é para quem está preparado”. Vê-se nas organizações espalhadas pelo Brasil que aqueles que as gerem são administradores, engenheiros, advogados, psicólogos, economistas etc. Também vê-se lá fora que a organização tem que apresentar condições para que isso aconteça, principalmente que ela tenha permeabilidade cultural e estrutural para diferentes modelos de gestão e de negócios.

É preciso ter muito cuidado com a apropriação direta da representação social disponível do que seja um bom gestor. Um consenso presente no mundo da gestão e nas organizações é que estar preparado significa, entre outras coisas: capacitação para dotar uma organização de uma estratégia consistente e sustentável sobre como será seu futuro e o que ela será; capacitação para desenvolver, aprimorar ou adquirir recursos-críticos para que a organização transforme sua realidade; apresentar modelos de gestão ou de negócio competitivos; reunir e liderar os recursos de gestão capacitados (gestores) para ajuda-lo no desafio da transformação; influenciar significativamente a cultura e comportamento organizacional; capacitação para gerenciar as recorrentes crises organizacionais que assolam as organizações. Olhados friamente, vê-se que são elementos que tem relação direta com os resultados de uma organização, uma vez que conduzem a maior geração de receita ou melhor gestão dos custos, algo extremamente desejável nas organizações. No mundo da gestão, espera-se que o gestor atinja seus objetivos pessoais ao fazer com que os interesses dos acionistas e dos clientes sejam contemplados. Existem exceções fortes, como as empresas de serviços públicos, que são odiadas pelos usuários, mas ainda assim os gestores alcançam resultados pessoais.

É evidente que existem grandes diferenças entre as organizações citadas acima e uma universidade, principalmente no que diz respeito a ler e interpretar o que seja geração de receita, melhor gestão dos custos e bons resultados. Aqui é o primado da administração pública, onde transparência e participação chamam mais atenção do que lucros. Entretanto, observando a realidade da "organização UFRRJ", pode-se tecer algumas considerações sobre como os docentes que historicamente a geriram trataram temas como estratégia e planejamento, aprimoramento dos recursos-críticos e reunião e liderança dos recursos de gestão capacitados (gestores). Por exemplo, sabe-se pouco sobre quando foi que houve um seminário formal, ou qualquer outro tipo de evento, em que tratou-se como seria o futuro da UFRRJ e as estratégias que indicariam como chegar lá? Chegou-se até 2012, o presente que um dia foi futuro, por meio de qual estratégia mesmo? Existe um comitê autônomo e ativo para tratar dos temas planejamento e estratégia? Fala-se de PDIs e PPIs, mas estes estão bem longe de representar algo que vai efetivamente impactar o futuro, principalmente pela maneira como são conduzidos.

No que diz respeito ao aprimoramento de recursos-críticos, vale lembrar que a UFRRJ passou pelos últimos 20 anos, pelo menos, sem qualquer implantação de um sistema integrado de gestão, o que significa que aumentou-se a complexidade da organização, o fluxo de informações, mas nunca aprimorou-se a tomada de decisão e raramente muda-se um processo administrativo. Não há sistemas confiáveis e robustos auxiliando a tomada de decisão. Isso é impensável no mundo real, mas a "organização UFRRJ" dá-se o luxo de passar décadas sem aprimorar a tomada de decisão, pois vive um mundo a parte. Que mundo é este? É o mundo onde os que vão geri-la chegam a essa condição sem apresentar todas as condições desejadas para fazê-lo com um mínimo de garantia de que a gestão será tão boa para os que dependem do funcionamento da organização quanto geralmente é para os interesses pessoais dos gestores.

Reunir e liderar os recursos de gestão (gestores) é algo sofrível por aqui, pois o primeiro escalão é montado com a chapa eleitoral e o segundo escalão é por critérios pessoais: amizades, gratidões etc. Por vezes aparece o falacioso lugar comum do “tenho um amigo capacitado para isso”, onde se busca razões pouco consistentes para legitimar a condição do amigo. Objetivamente isso significa que qualquer desafeto mais preparado jamais contribuirá. Além do fato de que corre o risco de ser desviado de função, pois não apoiou a chapa vencedora. O que dizer dos investimentos em desenvolvimento de pessoas feito nos últimos 20 anos aqui na UFRRJ? Atendiam a qual estratégia mesmo?

Emerge uma pergunta: por que não elegem-se marcadores consistentes para analisar aqueles que se propõem a assumir o comando da UFRRJ? Porque vivendo em um mundo a parte, e numa organização bem diferenciada das outras conhecidas, pode-se escolher os critérios que melhor aprouver para dizer o que é uma boa gestão. Não é necessária a relação inexorável entre o que propõe o modelo de gestão, os recursos que serão geridos, e os resultados esperados, bastando um projeto de poder. Não é necessário um esforço para chegar a um consenso razoável sobre o que é vital para a Universidade e para a organização UFRRJ. Portanto, pode-se sustentar falácias, manter visões equivocadas e insustentáveis sobre gestão e o mundo das organizações. Uma consequência não muito boa é que muitos poucos recorrem à coerência e ao bom senso antes de apoiar projetos e visualizar se são projetos de poder ou de gestão. Resultado: prevalecem projetos de poder que dificilmente repercutirão positivamente sobre a organização, a universidade e os que dela dependem, mas que certamente garantirão os objetivos dos ilustres ocupantes dos cargos ou dos cargos ilustres.

Por fim, recupero algo de que certamente jamais me esquecerei e que reflete bem o que é o mundo político e das relações sociais na UFRRJ, principalmente entre aqueles tidos como os que tem mais condições para comandar a organização, os professores. Anos atrás, após uma reunião de departamento para discutir sobre o Reuni e a criação de novos cursos, um colega justificou da seguinte maneira sua posição contrária à criação de novos cursos: “eu não vou colocar azeitona na empada dessa reitoria”.

Pois bem, se esta lógica for validada, de azeitona em azeitona retirada, esta empada que só faz crescer, a organização e universidade UFRRJ, ficará cada vez menos atraente, saborosa. Enquanto isso todos os interessados na UFRRJ continuam famintos por um modelo de gestão que também seja bom para eles, que efetivamente impacte suas vidas, e de maneira positiva.

Que a chapa que vencer esta eleição preocupe-se com a empada e com aqueles que dela tanto necessitam.

 

Marco Souza

11/11/12