Sábado, 18 Nov 2017
   
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Salve Paróquia

Oportunidade é o que melhor explica a expressão “Salve Paróquia” neste texto. Remete ao momento em que temos um folhetim televisivo que faz uso da essência da expressão, a saudação, e também ao momento em que a UFRuralRJ encontra-se em mais uma eleição. À esta universidade, e à sua cultura política ou a um aspecto imanente dela ou mesmo a um atributo da própria cultura desta universidade, estendo esta saudação.

A representação paroquial aqui utilizada ilustra a dinâmica social que transcorre em uma pequena cidade que gira em torno da sua paróquia(*). Da representação subtrai-se a figura religiosa e aproximam-se as lentes para observação das teias relacionais leigas que desdobram-se com o tempo. Dinâmica social esta recheada por contendas, picuinhas, fofocas entre membros de grupos que assentam-se, de maneira polarizada, em torno de objetivos, valores, práticas e ideais extremamente localistas, provincianos, conservadores. É uma dinâmica onde ninguém consegue dar uma contribuição para a melhoria da maneira que se vive, sem que esteja fatalmente comprometido um vinculo afetivo, familiar ou social; onde alguém, ao divergir, não o está fazendo em relação a uma ideia ou prática, mas sim ao seu proponente. É uma dinâmica que não aceita ou tolera mudança de lado, fato este que macula para sempre aquele que vier fazer isso.

Evidentemente, na vida estilo paroquial os fluxos originam-se e dirigem-se às lideranças políticas, o que faz com que estas figuras sejam maiores em representação do que a cidade que as abriga. A cidade não tem expressão própria ou uma história constantemente reinventada ou revigorada por diferentes matizes de contribuições: ela é menor que a aura dos seus líderes. Ela é ofuscada pelo capital social das suas lideranças, que, evidentemente, trabalham em favor desse patrimônio. Ela não é um território físico democrático onde vivem seus cidadãos e onde estes reforçam seus processos identitários; ela é, principalmente, um território simbólico onde um indivíduo tem que necessariamente pertencer a um grupo e corresponder aos seus anseios. Com seu capital social as lideranças amealham, quando do seu interesse, condições de poder extremamente distintivas. Aproximando-se do capital social, os liderados, seguidores, encontram as condições de pertencimento ideais para gerar conforto e vencer as ambiguidades e provocações dos estímulos além-paróquia. A paróquia é fechada para as interferências externas, não importando sua conexão com o mundo externo e as transformações que neste ocorrem.

Remeto a esta representação para jogar luz sobre a dinâmica vivida atualmente na UFRuralRJ em função das suas eleições. Lamentavelmente, apesar do Reuni, que levou a uma interessante mudança na paisagem física e humana que conforma a UFRuralRJ, uma dinâmica algo paroquial subsiste e mostra suas forças, até mesmo seu rancor com a perturbação promovida pelas mudanças recentes em sua paisagem. Há uma evidente perturbação na dinâmica das interações sociais neste momento, forçando que todos orientem olhares e ideias para a lide paroquial, esquecendo conexões com o mundo, prendendo todos à realidade paroquial e às suas idiossincrasias.

Os detalhes dessa nova dinâmica são muito interessantes. É acintosa, por exemplo, a maneira como algumas pessoas olham para você e para o seu carro à procura da “praguinha” e do adesivo de um candidato. É importante definir quem é você, localizar você numa perspectiva política, ser deste ou daquele grupo, e suas ideias e contribuições só tem legitimidade se associados a um grupo, evidentemente se você atendeu aos ritos de passagem dentro do grupo. As pessoas contêm suas falas, gestos e comportamentos; os olhares vasculham e monitoram a rotina atrás de novidades relativas à eleição. Não se consegue mais chamar uma pessoa para tomar um café sem que ela pense ou realize que você quer falar de política, quer levá-la para algum extremo da política paroquial.

O assunto é a eleição; prende-se e valoriza-se mais o burburinho e frenesi das candidaturas, do que a relação entre propostas e o futuro da organização. Isso faz com que projetos de poder e de rancor político sejam legitimados em detrimento à apresentação de modelos de gestão que mostrem quais recursos serão priorizados, e como estes serão manuseados, para uma possível intervenção positiva em alguns aspectos da realidade da UFRuralRJ. Resultado imediato: palavras pomposas são usadas para embalar proposições vazias e que só subsistem porque as regras eleitorais continuam validando propostas que não dizem nada de efetivo sobre o que será feito em termos de pesquisa, ensino e extensão; apoio às questões sociais dos aposentados; aperfeiçoamento do corpo técnico-administrativo e dos processos administrativos; relacionamento da UFRuralRJ com seu entorno; e as condições em que a UFRuralRJ estará no futuro, dado que ela produz muito lixo e ruído, atrai e produz muita viagem de automóvel e que pode, portanto, estar pensando em reciclagem do lixo e do próprio papel utilizado, produção de energia alternativa e gestão da mobilidade.

O frenesi faz com que sejam precarizados os espaços democráticos ou do fazer organizacional, como o debate, quando somos perguntados se queremos colar praguinhas no peito ou fazer parte da claque que vai bater palma para qualquer frase de efeito de um ou outro candidato. Mais: as pessoas são mesmo capazes de determinar que houve um vencedor em um debate que girou em torno do nada. Sim, em torno do nada, pois nada de novo e significativo foi trazido, dado que: quem continua fazendo a real mudança aqui dentro é o interesse do governo federal, ou seja, se vai ter menos ou mais verbas para este ou aquele projeto dele; a dinâmica administrativa ainda depende do envolvimento e competência do corpo técnico pouco renovado e da mesma realidade de processos administrativos, pois desde sempre a UFRuralRJ não conta com o aprimoramento do seu planejamento e prática de tomada de decisão. Por exemplo, onde está o Sistema Integrado de Gestão que permitiria uma gestão mais célere e consistente de todos os fluxos organizacionais? Onde estão os consensos, documentos e eventos que mostram que esta UFRuralRJ teve, um dia, direcionamento estratégico claro? Não existem. Ausências essas naturalmente capitalizadas para gestões anteriores, fato que explica que elas certamente não diferiram bastante nos erros e acertos, reforçando e realçando o nada que emerge no atual debate.

Um evento ocorrido ontem, 10 de novembro de 2012, também é bem ilustrativo dessa dinâmica paroquial que persiste na UFRuralRJ. Estive em quatro residências de pessoas ligadas diretas ou indiretamente à universidade e, em todas elas, fui questionado sobre um presumido afeto ou desafeto, de minha parte, por uma ou outra chapa ou pessoas que formam as chapas. Por que presumido? Porque, na paróquia, quem diverge, não o está fazendo em relação a uma ideia ou prática, mas sim ao seu proponente. Aqui não adianta pontuar, mesmo com clareza conceitual, divergências em relação aos projetos de poder e à lamentável ausência de projetos de gestão das chapas. Pois bem, minhas ideias e visões da realidade simplesmente não tiveram valor para as pessoas que me ouviram nesse dia, mas era importante pontuar se eu gosto ou não de um ou outro nome. É sempre uma ocasião desconfortável, pois as pessoas não percebem que, agindo assim, elas ajudam a esvaziar o significado universitário e o porte dessa organização em nome de um ou outro capital social.

Em duas das residências, a mensagem foi assim: “bem, você não gosta do antigo Reitor, mas seria importante a sua ajuda etc.”. É muito interessante isso, pois pessoalmente gosto muito do antigo Reitor, apenas não subscrevo, neste momento, algumas de suas ideias e práticas políticas. Trata-se de uma pessoa admirável, educadíssima. Nas duas outras casas, a mensagem era: “pena que você é do grupo do antigo Reitor, e se opõem a nós, pois seria muito interessante contar com suas ideias neste momento”. Também interessante isso, pois não tenho muita entrada no grupo do antigo Reitor e também não tenho nada contra a pessoa da atual Vice-reitora e dos demais membros da chapa, divergindo de algumas idéias e práticas. Sim, sou do departamento que, anos atrás, deu muito suporte às investidas políticas do antigo Reitor. Departamento que continua com a imagem maculada em algumas instâncias dessa universidade por esse suporte que foi dado anos atrás, apesar de ser hoje completamente diferente do que fora, com novas pessoas e proposições muito interessantes. Tudo tem que ser polarizado, não há diferentes painéis de visibilidade da realidade. Salve Paróquia.

Dias paroquias à espera de todos. Ficam a espera de mudanças aqueles que nada tem contras as pessoas, que apenas não subscrevem algumas ideias e praticas e que gostariam que houvesse uma outra dinâmica para as relações sociais nessa organização. Particularmente, tenho os meus critérios e marcadores para aferir e definir o que seria uma boa gestão e aquilo que apenas existe enquanto projeto de poder, e sem condição para ajudar a organização. Estou aqui há 22 anos, desde o CTUR; conheço um pouco dos tipos de projetos e proposições que historicamente aparecem por aqui e vejo que o Reuni ainda não surtiu seu efeito esperado. Os critérios e marcadores que utilizo, presentes na maneira como conduzo meu desempenho profissional, é o que gera meu senso de pertencimento, se não a um grupo, mas a uma filosofia e prática profissional que certamente é compartilhada por muitos aqui na Universidade, embora estejam tímidos. Oportunamente, aproveito para saudá-los: "Salve Universidade. Salve Organização".

Marco Souza

11/11/12

 

(*)  Embora pareça, o paroquial aqui não remonta ao conceito de AlMONDE e VERBA, S. 1963. The civic culture. Princeton, Princeton University Press. Também estudado em: http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/viewArticle/2100.