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Dois pinguins

A chegada de dois pinguins à praia do Leblon chamou bastante atenção. Logo formou-se uma grande confusão, o que contrariou os famosos que lá estavam, que deixaram de ser o centro das atenções. Todos os olhares voltaram-se para os inusitados visitantes que saiam abraçados da água, ambos vestindo camisas da Seleção Espanhola de Futebol e com mochilas nas costas.

Estupefatas, as pessoas aproximavam-se. Algumas faziam gestos afáveis, acreditando estar comunicando algo aos pinguins. Quando perdeu de vista a areia da praia, dada à parede humana que crescera a sua frente, um dos pinguins, com inconfundível sotaque, falou:

―Bom dia. Está aqui é a praia do Leme?

―Não, aqui é o Leblon! ― Alguém respondeu.

― Nossa, um pinguim que fala! E fala a nossa língua! ― Falaram entusiasmadamente.

Voltando-se para o acompanhante, o pinguim disse:

―Perdão, amor. Nem tudo deu certo.

Beijaram-se docemente, o que causou o maior frisson na praia, arrancando suspiros e comentários, mas permanecia no ar a desconfiança de alguns em torno das mochilas.

―Temos que chamar um veterinário para acudi-los! Vi na TV que não podemos tocá-los, nem alimentá-los. ― Alguém falou bem alto.

―Estamos com fome, cansados, mas estamos bem, obrigado. Precisamos apenas dar uma descansada e de dicas para encontrar um albergue seguro e módico. ―Disse o pinguim.

Àquela altura a paz já tinha acabado. Pois, como se sabe, “acontece no Leblon, acontece no Brasil”. Rapidamente chegou o Secretário de Conservação da cidade, que acabara de dar entrevista a um telejornal ali perto. Monossilábico, sem o peculiar abuso dos adjetivos, cansado da corrida que fez, ele cumprimentou a todos. Vendo a aproximação de jornalistas, orientou os assessores a tentar evitar o furo de reportagem que dois pinguins vestindo camisas da Espanha provocariam. Ainda tinha esperança de ter evitado as primeiras fotos.

― Façam uma barreira! ninguém pode fotografar esses pinguins com camisas da Espanha. Preparem uma coletiva. Liguem para o Eike, peçam o Othon Palace! Liguem para o diretor daquela cervejaria parceira nossa! Avisem o Prefeito e o Governador! Ofereçam camisas das Olimpíadas, com o logo da Prefeitura, imediatamente! Logo estaremos ao vivo para o mundo. ― Ordenou o sorridente Secretário.

Apareceram camisas das Olimpíadas e da Seleção Brasileira de Futebol.

― Eike, o Prefeito e o Governador estão em Londres, Secretário. ― Comentou um assessor. ―Vamos avisá-los e, assim que tivermos contato, colocamos na linha com o Senhor. O jeito é ficar em um hotel por aqui mesmo. ―Finalizou.

Feita a barreira – o que causou grande insatisfação nos que ali estavam –, o Secretário apresentou-se para os dois pinguins e disse:

― Estamos orgulhosos com a visita e gostaríamos de proporcionar uma recepção inesquecível aos ilustres visitantes.

― Obrigado, mas não precisamos de tanto. Nem somos o tanto que o senhor nos atribui. Somos apenas dois pinguins. Queremos aproveitar os dias que aqui ficaremos e ter dessa cidade o que ela normalmente oferece a quem nela está e... [antes que pudesse acabar, o Secretário o cortou]

― Não sejam tão modestos. O Rio de Janeiro é a cidade perfeita para pessoas incomuns, quer dizer, para pinguins incomuns, que buscam uma experiência incomum de lazer, negócios e hospitalidade. Somos uma cidade mundial e estamos preparados para todos os eventos, dos mais simples àqueles de escala global, como Copa do Mundo e Olimpíadas. Este é o Rio de Janeiro: do prosaico ao esplêndido, em um piscar de olhos. ―Disse o entusiasmado, e já polissilábico, Secretário de Conservação.

―Agradecemos tamanha gentileza, senhor Secretário de Comunicação, mas...

―Secretário de Conservação, por favor. ―Reforça o Secretário.

― Ok. Agradecemos tamanha gentileza, mas temos uma agenda pré-definida, temos algumas metas sobre o que queremos ver e viver aqui, algo relativo ao glorioso passado social, cultural e arquitetônico dessa cidade. Parece-nos que será algo simples, dado o prêmio que receberam hás poucos dias na Europa. No momento, precisamos apenas que vocês nos mostrem como chegar a um albergue seguro e módico. Certamente esta cidade, com sua própria organização e num piscar de olhos, conduz as pessoas para onde elas querem ir, não é mesmo? ―Disse, em tom irônico, o pinguim.

Voltando seu olhar para a paisagem, o Secretário comenta:

―Sim, sem dúvida alguma. Esta cidade se supera em todos os sentidos. Afinal, é a Cidade Maravilhosa, para todos, sem distinção. Gostaríamos apenas que vocês aceitassem nossa humilde proposta. É um orgulho para a cidade receber vocês e, saibam, com tudo por nossa conta. Precisamos apenas fazer alguns ajustes para essa fantástica viagem de vocês realmente começar. Faremos uma pequena coletiva de imprensa e já temos preparado um roteiro inesquecível para vocês. Vocês sabem, dois pinguins que falam não é algo tão comum assim...

Após olharem-se apreensiva e longamente, o pinguim falou:

― Quais são esses ajustes e o quê vai acontecer?

― Bem, por hora precisamos apenas que vocês coloquem estas camisas da Seleção Brasileira ou estas das Olimpíadas. Vocês sabem, Brasil, futebol arte, melhor do mundo, olímpiadas 2016...

―Estamos bem assim. Já curtimos o futebol de vocês, mas no momento apreciamos o futebol espanhol. Eles representam a arte no futebol, e apreciamos a arte. ―Comentou o pinguim.

―Ok. Sim, claro. Arte é importante...Eles estão bem. Nós não estamos tão bem assim, mas...olha [falando baixinho junto aos pinguins], vai pegar mal para nós, vocês fotografados com camisas da Espanha em pleno Rio de Janeiro. Atrás dessa barreira tem câmeras, maquinas fotográficas e celulares que vão nos jogar em segundos, e sem escala, para o globo terrestre. O quê vão pensar do Rio de Janeiro?

Os pinguins começaram a cochichar. Enquanto isso, o evento ganhava proporções inimagináveis. Alguns famosos queriam falar com o Secretário. Entre eles a presidenta do Flamengo, que trazia camisas do time, e o presidente da Escola de Samba Unidos da Tijuca. Em coro os dois diziam trazer para os ilustres visitantes os mantos da verdadeira essência carioca. Não foram ouvidos. Receberam vaias. Começaram os gritos de outras torcidas em favor de suas agremiações. Os flamenguistas e os que torciam pela escola de samba também entraram na confusão. A polícia e a guarda municipal tiveram trabalho. Tiros foram disparados para o alto, sobraram balas de borracha nos mais exaltados e naqueles que não fizeram nada. O spray de pimenta foi democraticamente distribuído a quem estava perto dos policiais e não podia perder a foto inédita.

Assustado com o barulho, voltando-se para o Secretário, o pinguim falou:

― Vestiremos a camisa da prefeitura. Mas vamos tampar a marca da “Empresa X”, e acabar logo com isso, por favor. ― Completou o pinguim.

No mesmo instante, eles começaram a abrir as temidas mochilas. Tiravam botons e adesivos. Rápida e supreendentemente, a camisa trazia sobre o logo da Empresa X as imagens da ICOMONS - International Council on Monuments and Sites , da Escola de Samba Portela e do América Futebol Clube.

Surpreso, o Secretário apenas balançou a cabeça. Ordenou o fim da barreira e pediu que fosse feito o caminho até o hotel onde aconteceria a coletiva. Desfeita a barreira, e reestabelecida, à base de dor, a ordem, logo o mundo via o casal de pinguins abraçados ao Secretário de Conservação que, estranhamente, fazia com os dedos o sinal de V. Milhares de flashes e ruidosos comentários deixavam todos ainda mais aturdidos. A caminhada até o hotel parou o bairro. Helicópteros das redes de TV e da polícia engarrafavam o céu do Leblon. Ainda assim, bolsas, máquinas e aparelhos celulares foram furtados e roubados.

No hotel, com todos os microfones e câmeras à sua disposição, o Secretário começou a coletiva:

― Olha, o Rio de Janeiro recebe esses amigos com muito entusiasmo. Uma das marcas da nossa cidade, e da responsabilidade que ela tem, é com a modernidade e hospitalidade. Acreditamos que se cada um dos nossos cidadãos compreender que ele pode, no seu dia-a-dia, com pequenos gestos como este, contribuir para a modernização da nossa cidade e para a melhoria da recepção aos turistas, dando a eles, o que ele diariamente recebe, nós estaremos dando um grande exemplo e um grande legado. Vamos levar o casal à Lapa, ao Cristo Redentor, ao Pão de Açúcar e ao Morro do Alemão. Mas o Rio é uma cidade da vanguarda mundial, comprometida com o futuro. Vamos ao Porto maravilha, à Cidade do Samba, onde faremos uma apresentação especial da escola de samba campeã de 2012, que apresenta ao mundo um novo carnaval. Como sabemos, é um novo Rio de Janeiro que se estende até a cidade Olímpica, isso é inegável. Além disso, vamos levá-los para passear no moderno BRT e para ver as obras das novas maravilhas dessa fantástica cidade que escolheram para visitar e, quem sabe, até morar.

Perguntados sobre quem eram e o que faziam aqui, o pinguim falou:

― Primeiro gostaríamos de agradecer esta inusitada recepção. Somos apenas um casal de pinguins ─ um arquiteto e uma professora de história ─, que deixou a Antártida para fazer um tour misturando lazer e atividades de engajamento, tentando atender a Rio + 20, a Eurocopa, a 36ª Sessão do Comitê do Patrimônio Mundial e a Olimpíadas de Londres.

Pausadamente e um pouco assustado, complementou:

― Com poucos recursos, e sabedores dos preços praticados nas cidades que sediavam esses eventos, procuramos fazer o melhor roteiro possível. Não tivemos como vir a Rio + 20, mas depois que conhecemos um casal de brasileiros em São Petesburgo e que soubemos que o Rio de Janeiro tornou-se a primeira cidade do mundo a receber o título da Unesco de Patrimônio Mundial como Paisagem Cultural Urbana, vir aqui tornou-se uma obrigação. Queríamos ver como essa premiada cidade preserva seu passado. Pretendíamos chegar à praia do Leme e, dali, alcançar um albergue para, depois, fazer um tour indicado pelo casal de brasileiros. Infelizmente errei no plano de nado. Agora estamos aqui.

―Quem é e o que lhes falou esse casal de brasileiros? ― Perguntaram ao mesmo tempo vários repórteres.

― É um casal de Macacos Muriqui que encontramos em São Petesburgo. Eles foram tentar a vida na Europa, já que aqui, segundo disseram, corriam riscos de extinção. Eles foram muito gentis e solícitos e ─ mostrando um livro que tirara da mochila ─ nos deu esse empolgante livro que fala de coisas boas que a cidade tem, coisas ligadas à história cultural e econômica da cidade e desse país. ― Finalizou o pinguim.

Era um exemplar autografado de “Um Rio de Janeiro que Passou em Nossas Vidas”, escrito por Leonardo Rocha de Souza.

Abrindo páginas do livro, olhando para o Secretário, ele continuou:

―Ficamos apaixonados pela descrição do Rio antigo. Queremos andar de bonde e de trem; queremos ver a preservação das casas antigas; visitar os museus e a Biblioteca Nacional; queremos ouvir chorinho e samba de raiz; conhecer a vida de Noel Rosa, Cartola, Paulo da Portela [a lista era imensa]; ir à vila Isabel, Mangueira, Beco da Sardinha; comer o Angu do Gomes, feijoada da D. Zica; jogar sinuca na Praça Tiradentes e dançar na Estudantina e, principalmente, andar nesse trem cheio de pessoas alegres para ouvir a Velha Guarda da Portela e comer a feijoada da Tia Suri...[foi cortado pelo Secretário].

―Trem com pessoas alegres só sai uma vez por ano, no carnaval. ― Pouco sensível à euforia dos Pinguins, virando-se para as câmeras, o Secretário disse:

― Como bem diz o livro: foi um Rio que passou em nossas vidas. Já passou. A cidade respira transformação e segue rapidamente em direção ao futuro. Estamos em agosto e a contagem regressiva para o carnaval 2013, copa do mundo e próximas olimpíadas já começou. Eles chegaram à Nova Barcelona! Faremos aqui eventos que ficarão para sempre na história. O que é mais importante: consolidaremos de vez nossa vocação e competência para receber o mundo e sediar constantemente grandes eventos, como fazemos com o Rock in Rio e o Carnaval, este um espetáculo que se renova a cada edição. Como disse antes, será um prazer para nós receber pinguins falantes e que poderão dar ao mundo o seu testemunho do que significa experimentar essa cidade transformada e transformadora que surpreende o visitante a cada piscar de olhos, uma verdadeira capital do mundo, devido a sua contagiante alegria.

Naquele instante um assessor trazia o telefone com o Prefeito na linha, reclamando daquela cena que se espalhava pelo mundo, de pinguins usando camisas com adesivos de ONGs que protestam contra transformações urbanas e das fotos que vazaram da chegada deles ao Leblon vestindo camisa da Espanha.

Visivelmente chateado, e em tom de protesto, o pinguim falou ao microfone:

― [Olhando para o Secretário] Dissemos ao senhor que tínhamos uma agenda pré-definida. [Olhando para o público] Temos algumas metas sobre o que queremos ver e viver aqui no Rio de Janeiro: conhecer seu glorioso passado social, cultural e arquitetônico. Também apreciamos ver nas cidades que visitamos como vive sua gente e como convivem presente, passado e futuro. Pedimos que nos mostrassem como chegar a um albergue seguro e módico, para depois seguir nossa visita, apenas isso. Não pedimos nada disso que está acontecendo. Não viemos aqui para dar testemunho de nada além do que a cidade oferece aos que a ela visitam. É o que fazemos em cada cidade que visitamos. É o que fazem aqueles que viajam. Ao nosso modo, e seguindo as orientações do casal de macacos muriqui sobre como sobreviver aqui, esperamos seguir nosso roteiro.

Transtornados, os pinguins deixaram a coletiva e foram para a porta do hotel.

O Secretário, ainda com o Prefeito ao telefone, ouvia:

― Por que você fez isso? Quis aparecer mais do que o prefeito e deu guarida para pinguins que são contra a modernidade. Vá agora para o porto receber turistas em Transatlânticos e coloque na imprensa que as obras para derrubar a perimetral já vão começar e que abriremos uma filial do Museu de Arte Moderna até o final do ano! Não podemos desperdiçar mais tempo.

Os dois pinguins entraram em um taxi e pediram ao motorista para deixá-los num albergue seguro e módico e que cobrasse a bandeira daquele horário. O motorista se recusou, dizendo não saber onde indicar. Ainda perguntou-lhes por que não usaram o manto sagrado do Flamengo, se até o Obama ganhou um? Os pinguins beijaram o escudo do América e disseram: "resistir também é uma maneira de fazer o futuro". Policiais, orientados pelos Assessores, pararam os pinguins e exigiram passaporte e visto. Iam ser levados para averiguação, quando contaram com a ajuda de uma emissora de TV, que trocou a liberação deles por mais uma cobertura espetacular de uma área pacificada. Por esse favor, pediram aos pinguins uma entrevista exclusiva. Avisados de que até os Albergues estavam sendo assaltados, acabaram aceitando o convite de um deputado, amigo da Marina Silva, para ficar em seu apartamento, no Leblon. Foram vistos em um samba, na Gamboa, e na Lapa, sem as mochilas e com camisas da Portela. A entrevista coletiva não foi concedida. A companheira do pinguim passou mal, com suspeita de dengue.

04 de agosto 2012.