Sábado, 18 Nov 2017
   
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Fragmentos de um retorno às aulas

É um relato. São fragmentos de momentos do retorno às aulas em uma Universidade Federal. Não é uma crônica, mas trata, em sua maior parte, de um problema crônico da Universidade brasileira: a convivência conflitante entre a agenda acadêmica e suas instituições e a agenda de festas e suas respectivas instituições. É uma leitura pontual de uma irônica e lamentável situação que emergiu desse desencontro de agendas justamente no momento em que transcorria uma das instituições da agenda acadêmica – a aula inaugural.

São cinco de março de 2012, 8:30 da manhã, Prédio Principal da UFRRJ. Dia quente. Muito calor à espera dos que participarão da aula inaugural: novos alunos, Técnicos-Administrativos, Coordenadores, chefes de Departamento, diretores de Instituto, membros da Reitoria e representantes das Entidades que viabilizam a universidade democrática – DCE, SINTUR e ADUR. Como sempre acontece, os alunos “veteranos” já estavam presentes, em grande quantidade, segurando placas, portando as camisas de seus cursos, todas elas comunicando aquilo que os novos alunos poderão esperar deles durante o que alguns ainda insistem em chamar de recepção, acolhimento, e que faz parte da agenda acadêmica.

A concentração ocorre no Gustavão. A UFRRJ insiste nesse modelo de aula inaugural, apesar de não ser mais a famosa universidade de 23 cursos em sua Sede. Agora são mais de 40. Espaço inapropriado para uma reunião de multidão. Mais: onde estão nossas competências e recursos para fazer isso, acolher de forma segura e confortável uma multidão? Quantas vezes tivemos reuniões nos meses anteriores para planejar o acolhimento aos novos alunos? Sim, acolhimento, um abraço institucional dado pela UFRRJ, envolvendo-os com os principais recursos e projetos de ensino, pesquisa e extensão que inspiram e movimentam essa universidade e legitimam a sua agenda acadêmica.

Começa o evento. Chama atenção uma inovação no discurso da Reitoria. Diz o Reitor: “o aluno é o melhor produto da UFRRJ”. Até pouco tempo esta fala era impensável. Não se concebia com facilidade que a UFRRJ fosse uma organização, que tivesse produtos, e que, portanto, deveria ter uma estratégia de funcionamento que sobressaísse em prioridade à estratégia de manutenção de poder. É inovador: “se tem produto, ela tem clientes, tem gestão da qualidade, tem estrutura para inovação em produtos e processos, tem planejamento da sua capacidade produtiva para que os clientes não fiquem desabastecidos e para que ela entregue ao mercado os melhores produtos”. Mas os boatos sobre a falta de condições para usar o Pavilhão de Aulas Teóricas (PAT) contradizem essa crença de que o discurso acompanha a realidade.

E os novos alunos? Sem que tivessem tido maiores orientações sobre o que os esperava naquele dia e nos próximos, muitos deles esperavam ressabiados. Outros já tinham feito, via facebook, laços com os alunos veteranos e foram direto para os grupos de trote que cada curso forma no gramado do P1, estes uma reconhecida instituição da agenda de festas. “Já foram avisados pelos veteranos de que a aula inaugural não tem muito valor”, disse um aluno novo para outro que insistia em entrar no Gustavão.

Os que entraram recebem os informes e falas, mantem seus primeiros contatos com a estrutura que vai formá-los, produzi-los. A realidade se impõe: os membros da UFRRJ falam com simplicidade sobre coisas que os novos alunos certamente não tem a mínima idéia do que sejam: “se quiser participar da aula de dança, vá ao Forninho”; “nosso grande desafio é o R.U”; “os coordenadores atuam junto ao Colegiado de Curso e ao Núcleo Estruturante Docente; “após a aula encontro vocês no ICHS, IA, etc.”. É a realidade: as falas são despejadas em quantidade significativa, sem que sejam consideradas a capacidade de retenção de tanta novidade pela audiência e o nível de conhecimento prévio do que tem e como funciona a organização que tem produtos de qualidade.

O Pro Reitor de Extensão falou sobre o papel da universidade na redução das desigualdades sociais. Mostra números claros de que estamos pior que a Argentina e o México, que os alunos ali sentados representam parte dos 3% que tem acesso a Universidade. Mostra que estamos luxuosamente assentados na Baixada Fluminense, um bolsão de pobreza e violência. Mostra que interesses econômicos e seus paladinos estão de olho nas terras da UFRRJ, que eles estão promovendo uma transformação do entorno a toque de caixa. Mostrou que erroneamente consideramos que cidadão e consumidor são sinônimos. Falou do Aterro Sanitário e do tráfico de armas e drogas que gira em torno do negócio lixo no Brasil.

A ADUR reforçou algumas palavras do Pro Reitor sobre violência. Falou das lutas travadas pela classe docente na UFRRJ. Falou da luta contra a instalação do Aterro Sanitário em Seropédica. Falou do Reune. O SINTUR falou das diversas lutas que foram empreendidas pelo sindicato para melhoria das condições de aula na UFRRJ com o passar do tempo. Disse que muitos só associam o sindicato à greve, mas que é necessário mostrar que eles lutam por causas como a não privatização do ensino.

O DCE homenageou Carlos Mariguella: lutador do povo e da liberdade. Falou de sua vida, luta e morte. Falou da tortura que marcou definitivamente a história brasileira e a luta estudantil. Falou que os alunos de hoje, que não viveram a época de lutas do passado, deveriam se organizar e lutar por metas mais recentes, como os 10% do PIB para a educação.

Enquanto isso, a outra entidade da UFRRJ - o aluno veterano, que impõe forçosamente os limites que os diferenciam dos novos alunos -, fazia incômodo e insensato ruído do lado de fora do Gustavão. Alheia a importância histórica do que se falava na aula inaugural, a entidade reclamava ruidosamente o seu direito de incidir sobre os novos alunos como se estes fossem caça, já que são bichos. Incômodo ruído, pois as conversas e gritos dos alunos veteranos abafavam as falas dentro do Gustavão. Insensato ruído, pois enquanto lá dentro falava-se de luta, tortura, violência e miséria, gritava-se a todo instante do lado de fora: “Bicho tem que morrer!”.

Irônica situação esta em que a doce e marota picardia universitária, tão protegida aqui na UFRRJ e outras IES, faz uso da expressão morte para promover seus desejos pontuais de achincalhe e vilipêndio ao novo aluno. Isso justamente no momento em que a aula inaugural trata de um passado de luta pela democracia, quando a morte trágica, gratuita e violenta promovida pelo Estado incidia dolorosamente sobre as famílias daqueles que lutavam pela transformação do Brasil. Irônica situação esta em que os novos alunos começam a abertura de sua jornada tendo a morte, em palavras e imagem, permeando seus primeiros momentos.

Sim, morte. Pois miséria, tráfico e violência aludem e remetem a morte. Pois em suas camisas os veteranos comunicam sua disposição: com a caricatura de Marlon Brrando, retirada do filme Poderoso Chefão, os alunos de Administração mostram a personagem segurando uma marionete, neste caso o calouro, e a frase “O Poderoso Veterano” (ironicamente, a cor é vermelha); a camisa da Veterinária diz: “BOPEVET – Bicho que não agüenta pede para sair”; a camisa da Educação Física diz: “Bicho tem que morrer”; a camisa da Zootecnia diz: “Bixarada Bruta da Zootecnia”. Galhardamente eles aludem a símbolos da violência, como o BOPE ou o clássico filme, como se estes servissem para representar ambições de uma comunidade universitária. Para o Estado, o BOPE significa segurança, para as comunidades a presença deles comunica que algo não muito agradável vai acontecer.

Irônica situação esta em que vemos toda essa manifestação insensata acontecer enquanto os vídeos que são apresentados trazem músicas como Linda Juventude (14 Bis), E Vamos à Luta (Gonzaguinha) e Roda Viva (Chico Buarque), músicas que simbolizam intensamente momentos específicos de dor ou esperança vividos pela juventude.

Infelizmente, uma entidade do melhor produto da UFRRJ estava alheia ao conteúdo que embalava a aula inaugural. Os alunos veteranos, alheios à história da própria classe - aluno universitário -, e legitimando a visão deles de que a aula inaugural não tem muito valor, reuniam-se ruidosamente para definir a agenda de achincalhe e vilipêndio que imputarão aos novos alunos nos dias que seguem durante o que eles chamam de acolhimento, socialização. Sim, agenda. Pois o trote não é um evento isolado e que ocorre em um dia, é uma jornada que percorre o calendário acadêmico.

Finalmente, foi irônico ver a agenda de festas sobressair a agenda acadêmica no retorno às aulas. Mais uma vez observou-se a endêmica ausência de professores na primeira semana, faltando eles ao processo de produção do melhor produto da organização. Tivemos a Reitoria anunciando orgulhosamente a primeira festa do semestre, a Calourada, como se precisássemos de mais uma festa, sem considerar as dezenas de festas que ocorrerão durante o semestre. Festas estas que começam com o trote que desemboca nas chopadas e festas temáticas. A agenda acadêmica não sobressaiu: as aulas no ICHS, o Instituto que tem o maior número de alunos da Sede, foram totalmente inviabilizadas porque o PAT não tinha condições de funcionamento.

É um relato. É uma leitura de fragmentos de momentos de um retorno às aulas, da rotina de uma Universidade e de suas contradições e do conflito entre duas agendas inconciliáveis. É uma leitura do momento em que, insensatamente, um presente imaturo e pouco afeito a reflexão quis calar, a base de gritos, um passado de reflexão e lutas pela democracia. São fragmentos do momento em que o melhor produto de uma universidade demonstra sua pouca disponibilidade e habilidade para reconhecer, fazer e honrar limites.

Marco Bauhaus