Domingo, 19 Nov 2017
   
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A marca de batom

 

Foi preciso beber água numa garrafa deixada por uma colega sobre a mesa de trabalho para que percebesse o quanto esteve longe de sua esposa enquanto durou o casamento. Ele não conheceu aquela mulher.

Durante hora e meia a garrafa pairou a sua frente sem que desse alguma atenção ou a mudasse de lugar. Embora a tivesse notado, preferiu ficar lendo. Bastou a sede se anunciar para que declinasse à indiferença pela garrafa.

Num gesto simples e displicente, sem olhar para a garrafa, tirou a tampa e sorveu um gole. Logo percebeu um gosto diferente. Dirigiu sua atenção ao gargalo e lá estava a marca de batom deixada por sua colega. Diferente também era a imagem da boca da garrafa manchada de batom.

O impacto foi fulminante. Segurando a garrafa e reagindo ao contato dos restos do batom em sua boca, logo se pôs a refletir por conta das imagens que lhe viam a mente. A primeira imagem foi da boca de sua colega, com seus lábios fechados e carregados de batom. Ele jamais dirigira algum olhar para aqueles lábios. Eles não significavam nada para ele, ainda que bela fosse e por ela nutrisse sentimentos positivos de admiração por sua competência.

A sensação não era a de estar beijando os lábios dela, mas a de estar entrando, de fato, em contato com um par de lábios. Acabavam de ser apresentados um ao outro. Não era a sensação rebelde de quem rouba um beijo, nem a sensação prazerosa de quem recebe de uma mulher a mensagem de que ela quer ser dele ou de que ele pode ser o homem dela.

Logo lhe veio a mente a imagem de sua esposa. Não de seus lábios, mas do seu rosto inteiro, lindo, como sempre fora. Não lhe veio à boca a lembrança do gosto de um beijo dela com batom; sequer lembrava de algum dia ter roubado um beijo. Não experimentou prazer algum. Os beijos em sua relação pareciam, naquele exato momento, jamais ter comunicado que ela fora sua mulher ou que ele fora dela o homem. Seus beijos eram dados mecanicamente, desprovidos de emoção, não tinham sabor algum, não simbolizavam posse, entrega, aventura, descoberta ou liberdade. Ele não conseguia ver significado neles. Provavelmente contribuíra ele para que a rotina fosse lentamente fazendo com que seus beijos passassem a não significar nada de bom também para ela. Em verdade, ele jamais houvera atentado para o que seus beijos significavam para ela; se sabores evocavam, se sensações provocavam. Pensou em telefonar para perguntar, mas àquela altura não faria sentido algum ligar. Quase tudo parecia sem sentido entre eles, e o distanciamento que agora experimentavam, este sim ganhava mais sentido a cada dia que passava.

Durante anos esteve perto dos lábios dela. Eles tinham um significado para ele: faziam parte do conjunto de contornos e formas que fazia daquele rosto um dos mais belos que já tinha visto. Agora lembrava como eram carnudos e homogêneos; significavam o melhor do prazer que uma mulher pode dar a um homem quando usa sua boca para comunicar tudo sem dizer uma palavra sequer. E ela o sabia fazer com maestria. Ainda que maravilhosas imagens dos silenciosos discursos dela viessem à sua mente, constrangia-lhe o quanto significavam aqueles lábios de sua boca para baixo e não de sua boca para o coração.

Ele não conhecia aquela mulher, porque não conhecia seus lábios. Mesmo perto, ele esteve distante. Daqueles maravilhosos lábios só extraia seu solitário prazer, nada mais. Sequer se lembrava de uma única imagem dela passando batom nos lábios. Lábios que podiam dizer tudo. Quantas coisas ditas foram perdidas. O que estaria ela querendo lhe dizer quando simplesmente passava batom nos lábios? Ela estava se pintando, sinalizando, chamando atenção para algo que ele passou alheio, displicente, deixando de aproveitar um dos momentos mais interessantes da singularidade feminina: o momento em que ela anuncia a ação.

Insignificantes também são os batons, para ele. Como as garrafas de água mineral, eles não lhe chamam atenção. Onde eles ficavam dentro de sua casa? Não se lembrava. Ele não conheceu aquela casa.

2002 - Sala 6, ICHS, UFFRJ