Domingo, 19 Nov 2017
   
PDF Imprimir E-mail

Minha mãe, e a luta pela vida; meu pai e o futebol; eu e minha tese

Dedico esta tese a minha mãe e ao meu pai. Infelizmente eles não estarão presentes nesse momento tão importante para um dos seus filhos. Filhos de uma viagem que a vida fez abreviar mais cedo do que normalmente esperam os que amam. Mais cedo até do que o mundo merecia, pois eles foram pessoas de dignidade marcante e ainda tinham muitos exemplos a dar.

Dona Tininha nos deixou faz 27 anos, mas me deixou um legado de luta e um forte sopro de vida que me acompanha desde que tomei consciência da sua luta e força. Força para vencer as dificuldades da vida pobre de Pedro Teixeira, para levar a frente a sua família e, principalmente, para vencer a luta contra o cancer, quando pouco se sabia sobre esta doença. Mesmo doente, ela continuou indo às aulas no colégio onde procurava estudar para recuperar o tempo que a infância pobre a roubou. Seu lema era: "sempre em frente". Seu principal slogan era uma risada inconfundível. A uma professora ela confessou: "só paro quando a morte chegar". Durante o doutorado procurei exercer essa herança. Herança esta que não me deixa ficar parado ou optar pelo caminho da banalidade ou da mediocridade. Mãe, tentei superar os limites. Acredite, não fugi à luta. Vamos em frente!

Seu Antônio Goulart partiu faz 3 anos. Ele pegou o início da luta que foi fazer esse doutorado sem bolsa e sem afastamento. Trabalhei e estudei muito nesses quatro anos. Eu quis muito lhe dar este presente, até para compensar os desencontros que minha afobação, assumo, proporcionou. Ele tinha esperança que eu fosse jogador de futebol; queria que o filho "comesse a bola", como se diz no linguajar boleiro. Eu o frustrei: gostei de estudar, não servi para o futebol. Além disso, sob motivação assumidamente equivocada, entendi, em determinado momento da minha vida, que deveria questionar meus heróis, e ele fora o principal deles. Voltei-me contra sua entrega total ao futebol. Mas como estudante procurei deixá-lo orgulhoso, tentei compensar no estudo o pereba no futebol, já que ele foi craque, "comeu a bola" e não gostava de perder. Pai, posso dizer que me envolvi tanto com esse esforço que eu "comi a tese". Isso mesmo, para saber mais sobre os alimentos funcionais e nutracêuticos eu mudei consideravelmente meus hábitos alimentares e passei a comê-los. Você viu como fiquei chato. Eu quis ver, na prática, o que isso significava. Hoje sou professor e digo que no jogo que pratico, o de ajudar a desenvolver pessoas, eu também não aceito perder: mesmo enfrentando o desleixo desse país com a educação, estou sempre lutando pela dignidade do time e dos torcedores. Vamos em frente!

Maio, 2008.