Domingo, 19 Nov 2017
   
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Consenso de bar

Os bares sempre me chamaram muita atenção, principalmente aqueles com alma e cara de boteco. Eles formam um território diferenciado em nossa sociedade. A imagem que tenho deles é a de uma verdadeira instituição do tênue exercício diário de construir a democracia, uma vez que eles são um espaço diferenciado para legitimação do direito a expressão.

A magia de um bar é tão grande, que a simples entrada naquele ambiente investe o indivíduo de uma intimidade com o mundo dos pensamentos e das idéias que é impressionante. Basta sentar para começarmos a sentir o dom da palavra aflorando. Nos sentimos senhores da situação, uma pequena Barsa, decantada a cada gole. Fala-se sobre tudo nos bares, é só mandar o tema. A prosa nunca acaba. Lá, gosto, futebol, política e religião se discutem sim, e não passam de pequenos aperitivos para o complexo exercício de dar conta da realidade em vários pitacos e goladas. Dar uma passadinha num bar para falar com os amigos é tarefa obrigatória, uma contribuição significativa para a economia do saber.

Impressionante são as pessoas que conseguem produzir um consenso numa conversa de bar. Mais impressionante ainda é quando elas fazem isso sistematicamente. Eu ainda não conheci ninguém que alcançou tal feito. Trata-se, sem dúvida alguma, de uma figura raríssima, uma verdadeira celebridade, que consegue ser unanimidade num local para onde as pessoas parecem levar todo o seu capital intelectual. Só parece, pois o que elas carregam mesmo é uma imensa vontade de protestar e por para fora suas angústias. Um patrimônio que é defendido a todo custo.

Aparentemente, o freqüentador do bar leva para lá sua disposição para trocar idéias, para dar conta, e com nobre distinção, da realidade multifacetada do mundo. Mas o que a agenda oculta de todo freqüentador de bar exibe mesmo é o intuito e desejo de questionar e, automaticamente, divergir. Decididamente, a meta ali não é ser ouvido, ter a idéia relevada, mas gerar o dissenso, provocar. Afinal, para que convergir, se concordamos a todo instante no trabalho, em família, nos consultórios, filas de banco etc.?, se tudo o que se aprendemos nos manuais de sobrevivência nas organizações é não ser rotulado de chato, o nobre emissário da infelicidade. Há um esforço sobre-humano nas empresas para parece simpático, convergente, boa praça. Os mais experientes, dizem, alcançaram um patamar em que concordam discordando. Impressionante. Ninguém quer ser o “espalha rodas”. Por isso o bar é uma instância diferenciada das nossas vidas: as pessoas levam para lá tudo o que religiosamente reprimem no seu dia-a-dia, o subproduto da prática diária dos supervalorizados marketing pessoal e networking.

Existe todo um ritual a ser observado na arte do dissenso. Já vi uma conversa com quatro pessoas durar mais de hora, num bar da Lapa. O assunto de abertura eu não me lembro, mas recordo-me de ter visto as quatro pessoas balançando a cabeça negativamente ao fim da primeira afirmação contundente feita. Afirmação esta feita num dos estilos mais expressivos do bar, com o autor sentenciando sem titubear: “a verdade, meus amigo, é que..”. A cena foi marcante: três pessoas discordavam acintosamente da afirmação. Maneira de agir esta que, logo percebi, já servia como parte da própria opinião que breve viria. A outra pessoa, logicamente, discordava da discordância dos amigos. Via-se na face deste o desapontamento com a reação dos outros; era fácil deduzir o que ele, pensando alto, dizia sobre aquele ato infame: “caramba, como podem desconsiderar a qualidade dessa opinião!”. Eles não respeitaram, principalmente, a envergadura conceitual dele, figura que se tem em muito boa conta e tem anos de bar e, evidentemente, de saber. Começava as longas rodadas do jogo do “afirma você, discordo eu” que se sucedeu.

A primeira vitima bebia resignadamente o primeiro não da rodada. Cabeça baixa. Olhar fixo na mesa. Recuperação do fôlego. Ele ficou elaborando aquela pérola durante boa parte do seu dia. Enquanto os outros terminavam de crucificar sua idéia com comentários que saiam cada vez mais baixinhos, e de mencionarem algum pormenor, ele tomava em cada gole forças para desfiar seus próprios golpes, para soltar sua seqüência arrasadora de não até chegar sua vez de fazer outra grande intervenção. Seu olhar comunicava que ele vingaria um por um, não sobraria nada, qualquer brecha para convergência. Assim ficou até o início da próxima rodada de afirmações contundentes. Evidentemente, sequer se preocupou em aferir a relevância dos comentários contrários, nem procurou relacionar as diferentes justificativas apresentadas em cada discordância. Afinal, a meta era discordar. Ele lambeu a ferida, bebeu o amargo da vingança, já que o chopp tinha esquentado enquanto se esforçava para ser o primeiro a discursar. Este é um erro que nenhum garçom de um bom bar deveria cometer, pois prejudica sensivelmente o jogo: “a bebida tem que estar gelada. Ela premia o guerreiro, energiza o lutador em apuros”.

Enquanto isso — ora em silencio, ora em ruído — via-se cada discordante preparando seus argumentos que, além de sustentar a recente discordância, preparava o terreno para as afirmações categóricas. Estas a obra-prima de um digno freqüentador de bar. Cada um, como de praxe, trouxe sua coleção de pérolas sobre os temas mais recorrentes, devidamente elaboradas durante o dia. Cada um quis ser o primeiro, mas o tema mudara com a intervenção do colega. Hora de inovar, de adaptar. Os olhares demonstravam que seriam várias rodadas, início digno de um grande jogo, um complexo exercício de argumentação sustentado por goladas cada vez mais desatentas, pois todos querem ser o primeiro a soltar seu poderoso ponto de vista, iniciando a próxima rodada do jogo.

Aprendi o jogo. É tudo muito rápido: “afirma você, discorda eu. Justifico sua desqualificação. Em seguida, afirmo confiante e resoluto a verdade sobre o tema em questão. Pronto: realidade simplificada, gole vencedor”. Assim se porta cada jogador em sua resoluta convicção de medalhão machadiano. O fato de não ter conseguido iniciar a rodada dá sobrevida ao não dos que ficaram para trás, e a desventura desses ajuda a vingar o primeiro discordado, que sorri viçosamente com seus próprios nãos a postos. Não tinha jeito, a primeira vítima teria que vingar um por um, fazer justiça com a própria língua e pensava em voz alta: “foram eles que começaram, era só concordar comigo, minha idéia era espetacular, falo sobre isso todos os dias”.

Emocionante também foi quando de uma conversa, rolando em volta de uma mesa de sinuca, tratou do tema educação, num bar perto da minha casa. Foi um momento especial. Os participantes, vários, eram, surpreendentemente, professores. Quem assistia não pensava outra coisa: são professores, cabeças feitas, argumentos fortes, estilos pessoais construídos e legitimados ao longo da docência; educação, tema central na vida, quem não conhece nos bares o famoso “sem educação não há desenvolvimento”?, sempre sai, e agora sairia com mais propriedade. Bons momentos à frente eram aguardados por todos que estavam naquele bar. Quem não estava naquela roda, via-se, segurava de maneira hercúlea suas poderosas opiniões, estas, como sabido, consubstanciadas por anos de bar e afinidade incomum com qualquer assunto.

Estavam na roda professores de diversos disciplinas e níveis escolares. De repente, fez-se o silêncio. Ao fundo, apenas as tacadas dos dois que jogavam, o professor de história e um que lecionava geografia. O professor de matemática deu início aos trabalhos convidando o professor universitário para um churrasco, ainda naquela semana, ali mesmo no bar.

— obrigado! Mas estarei em sala de aula. Disse o convidado aos colegas.

— O churrasco vai ser a noite.  Replicou o anfitrião, que já se achava o dono do bar.

— Eu sei, mas dou aula a noite. Disse o professor universitário, que complementou categoricamente: — Pior não é dar aula a noite, meu amigo, é ter que aplicar prova final nesta época do ano, dezembro. Audaz e resoluto complementou: — tem certos padrões de desempenho de aluno que são simplesmente inaceitáveis para uma Universidade Federal. É um absurdo ter que aplicar prova especial para essa nata da população. Eles teriam que corresponder a aposta do país neles com um desempenho superior.

O professor de história, balançando a cabeça negativamente, já sentenciou:

— pára com isso, amigo! Você já pega o cara moldado, pior é para quem pega ele lá na base, aquela criancinha bruta. Isso sim é que é barra! Lutamos contra um país que não aposta na educação. Enfrento isso há vários anos. Dar aula em universidade é moleza, festa toda semana.

Antes que ele acabasse e outra pessoa tomasse a cena, o professor universitário, mexendo veementemente sua cabeça para os lados, replicou:

— moldados ou torcidos? Infelizmente, já pegamos os alunos torcidos quando chegam à universidade, poucos escapam. Foi-se o tempo de glórias, os alunos saem do 2º grau com todos os vícios possíveis, sofremos para fazer uma distorção que dê dignidade aos anos da graduação. É torto o futuro do Brasil, amigos. A boa educação de base é coisa do passado. É o que é pior, já viram Planos Nacionais de Desenvolvimento sem instituições de ensino superior de excelência?

Indignado, o professor de matemática sentenciou:

— auto lá! Já viu a qualidade do ensino fundamental no Brasil? Meus alunos não aprendem nada de matemática, já chegam derrotados para mim; alunos imaturos, sem disciplina alguma, traumatizados, vazios. Dou aula na particular e na pública, e a coisa só melhora um pouquinho na primeira.

O professor universitário e o de história negavam ostensivamente, até ensaiaram uma brilhante intervenção, mas foi o professor de geografia que tomou a palavra:

— os traumas com a matemática nascem é no ensino fundamental, no primeiro ciclo, quando as crianças têm acesso aos primeiros conceitos. Lá começa a derrocada, quer dizer, as torções no que seria o futuro do Brasil, nossas criancinhas. Os professores mais fracos estão na base. Afinal, os cursos de formação de professores no Brasil são uma piada! Vai ver quanto pagam aos professores os municípios e as escolas, uma merreca! O cara, além de fraco, ainda fica sem motivação para fazer qualquer coisa. Esse é o retrato fiel do Brasil, no campo e na cidade, sem qualquer distorção. Ah, é claro, não posso me esquecer: o burguês da cidade é quem leva vantagem no vestibular. Esse processo é histórico.

O indignado professor universitário ganhou a frente:

— a desculpa do salário não cola. Esse professor não faz um bom trabalho porque não é este o princípio dele, falta amor à profissão, ele não veste a camisa. Geralmente é assim, não conseguiu ser vendedor, vira professor.

A fala infeliz gerou reações contundentes, como a do professor de história:

— olha só quem fala de amor a profissão! Quantas horas de aula você dá por semana? 8 horas? Damos quase 50 horas por semana, em várias escolas; seguramos as pontas com as crianças mal educadas que vocês têm em casa, elas já chegam lá sem ter conhecido limite algum. Além disso, não temos toda a “infra” necessária para fazer a lapidação que queremos. O prefeito brinca de investir em educação. O dono do colégio vem com contos de fadas para nos para justificar os passeios que fazem quase toda semana. Trabalhamos com as mesmas crianças todos os dias durante vários anos. Vocês dão uma aulinha hoje, outra amanhã, não querem se envolver com os alunos, dar a eles a atenção necessária.

O professor de geografia falou ao professor de história:

— você ainda acha que tudo ocorre na sala de aula? É coisa do passado, o conhecimento está lá fora, o aluno tem que sair para conhecer o mundo, não tem que ficar sentadinho em filinhas aprendendo a ser ordeiro. Você não leu Paulo Freire?

A resposta foi imediata:

— Pode-se conhecer o mundo pela internet. O que vocês fazem é ir a parques, turismo escolar, um novo mercado, e os pais acham que estão ajudando os filhos. Quer saber sobre o mundo? Comecem visitando a própria cidade, o bairro, conhecendo a realidade como ela é. Verão que os colégios municipais não têm a mínima condição para ajudar os professores. Quer saber de uma coisa? Isso para mim é um preparatório para um mundo de festas e busca do prazer que tem seu auge na universidade. Só festa. Estudar que é bom, meus amigos, nada. Ainda falam em desenvolvimento nacional. A verdade é que o país já nasceu torto, a própria República foi um golpe, sentenciou ele.

Antes que pudessem reagir, ele provoca:

— E o que vocês sabem de Paulo Freire? Ficam lendo estes livros de auto-ajuda, programação neurolingüística, fazendo seminários de motivação proporcionados por secretários de educação deslumbrados, e querem falar de construtivismo? Temos alunos, não clientes. Temos que educar, formar cidadão, e não ficar pensando em satisfação de desejos e necessidades!

O professor universitário tomou e palavra:

— A verdade mesmo é que toda sociedade está corrompida pela filosofia do prazer. Quando o aluno chega à faculdade, ele já está orientado para a moleza e se comporta como um consumidor, fala de satisfação, quer personalização... uma vez não pôde fazer a prova naquele dia, outra vez não poderá deixar de ir ao aniversário do pai, na outra não pode ir à aula no dia do próprio aniversário, e por aí vai. Infelizmente, já estão viciados e, na hora de estudar, a agenda do prazer tem prioridade sobre a agenda do sacrifício.

A resposta do professor de Geografia é imediata:

— Agenda do Sacrifício? Para com isso! As universidades federais ficam em greve três meses por ano a cada ano. Vocês perderam a vergonha na cara! Estão iguais ao Senado, Câmara de Deputados, Ministros do Supremo, Juizes etc., tomam suas decisões e não estão nem aí para o que a sociedade pensa ou almeja, contrariam aquilo que todos acham normal. Pára com isso!

E de bate-pronto veio a resposta:

— pelo menos nós pressionamos o governo, lutamos por um projeto nacional de educação. E você que votou no prefeito que lançou a aprovação automática nos colégios da rede pública? Para com isso, você.

— Pelo menos eu não votei no meu primo para vereador, disse o professor de geografia. Votar no primo não deixa de ser uma contribuição para a cultura do nepotismo. E tem mais: para que votar nos candidatos da esquerda festiva do país? Uma vez no poder, esses intelectuais fazem pior que os outros.

— Nada disso. A verdade, meus amigos, a santa verdade, é que todo mundo rouba quando chega ao poder. Diz o professor de matemática. E bobo é o que entra lá e não faz o seu! Rouba-se nesse país desde a colônia. As coisas estão tortas desde há muito, e não é o erro de um ou outro que explica a mazela.

O professor de história retruca:

— O que mata o país é essa nossa ética flexível que nos faz encher a boca para dizer: fulano rouba, mas faz. Se rouba, é ladrão. E isso já diz tudo, não precisa complementos.

— Nossa ética, não. Pois não fui eu que votei no prefeito atual. Diz o professor universitário.

— mas votou no seu primo, aquele advogado de porta de cadeia. Retrucou o professor o colega.

— pelo menos estudou, não é igual àquele prefeito sem estudo, analfabeto de pai e mãe. Retribui o professor universitário.

— Estudou o que? Ele fez faculdade particular. Disse o professor de matemática. E complementou: — particular é assim: pagou, passou.

— Auto lá! — bradou o professor de Geografia. — Fiz faculdade particular e lutei muito para me formar. Eu estudei, não tive essa moleza que vocês tiveram de estudar em colégio particular a vida inteira e entrar para faculdade federal.

Todos, balançando a cabeça, olharam com perplexidade para ele.

— Moleza? — disse o professor universitário. — Eu estudei e muito, não foi fácil chegar até o doutorado, muitos dias sem dar atenção à família e aos amigos. Estava defendendo o moral desse país, que precisa de mais pesquisadores.

— pesquisadores para fazer greve? — disse o professor de Geografia. Precisamos é de bons salários para todos!

E por aí enredaram os professores durante horas, mostrando que em dia mesmo, só a agenda do dissenso, a verdadeira forja dos futuros sujeitos. Da educação foi-se para a política, depois para a economia e já estava-se em globalização quando o dono do bar anunciou que iria cerrar as portas. Mas houve tempo para alguém soltar a velha pérola: “o problema é sistêmico! Não adianta ficar tirando o todo pela parte, e vice-versa”. Do que eu discordei e muito, produzindo em silêncio minha pérola: “acho que a coisa não vai por aí não. Para mudar o mundo, temos que começar por nós!” Tomei a ultima golada da cerveja quente e fui embora contrariado.